Na Croisette
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Na Croisette

Luiz Carlos Merten

13 de maio de 2014 | 18h03

Festival de Cannes

CANNES – Cá estou de novo, à espera da abertura do 67.º festival. Já dei minha volta pela Croisette, que este ano não está tão embandeirada como em edições precedentes. Será a crise? Comprei alguns revistas no aeroporto em Paris. Duas hors-série, a de Le Monde dedicada a François Truffautr, e só agora me dou conta de que em 2014 se completam 30 anos da morte do diretor mais amado da nouvelle vague – não por mim, tenho de reconhecer. A outra, de Le Point, homenageia Jean Gabin – Gabin toujous, é a chamada de capa. Volto à afirmação anterior. Tenho uma relação complicada, no meu imaginário, com Truffaut. Já entrevistei muita gente que conviveu com ele. São depoimentos desencontrados. Truffaut, o homem que amava as mulheres (e o cinema), não se importava de destruir reputações, e o fazia por uma agenda. Para afirmar a nova  onda, era preciso destruir o cinéma de papa, não havia coexistência possível, e ele o fez. Talvez seja injusto, mas fora certos momentos pontuais – Jules e Jim, O Garoto Selvagem e os policiais hitchcockianos -, acho que Truffaut instituiu uma nova ‘qualidade’ e ficou refém dela em filmes pequeno-burgueses que foram me interessando cada vez menos. Mas, agora, folheando a revista e revendo as fotos, sinto ternura por ele. O conflito entre o definitivo e o provisório que está no centro das obra de Truffaut – e na vida –  não deixa de me apaixonar. Até 21 de outubro, dia de sua morte, terei/teremos tempo de revisar o legado de Truffaut. É curioso, ele morreu novo, aos 52 anos, de um câncer no cérebro. Tanto tempo depois, Jean-Luc Godard, a quem forneceu  a história de Acossado – mas brigaram, justamente porque Godard, o revolucionário, não tolerava o aburguesamento do ex-amigo François -, está não apenas vivo como concorrerá à Palma, que nunca ganhou. Mais curioso ainda – nenhuma biografia conhecida de Godard passa atestado de bom-caratismo para ele, como muitos depoimentos conhecidos sobre Truffaut também não o avalizam como pessoa. Comprei também Cahiers du Cinema. Para comemorar sua edição de número 700, a revista perguntou a 140 autores qual sua cena preferida, e por quê. O filósofo Jean-Luc Nancy abre o lote anmalisando a cena em que Fred Astaire e Cyd Chjarisse dançam no Central Park em Roda da Fortuna, de Vincente Minnelli – mas é a cena preferida de Santiago, o mordomo da família Salles, conforme João Moreira Salles lembra em seu magnífico documentário. Pode ser que tenha deixado passar alguém, mas o único brasileiro da seleção é Kleber Mendonça Filho, que cita uma cena absolutamente improvável para cinéfilos de carteirinha, mas ele viu a segunda parte de Jesus de Nazaré, de Franco Zeffirelli, no Cine São Luiz, no Recife, que tem duas colunas ladeando a tela e, na cena em questão, Jesus é apresentado à multidão entre duas colunas . O jogo de espelhos marcou o menino Kleber para sempre. Ele olhava para a tela, via as colunas e, dentro do plano, era como se Cristo olhasse por dentro das colunas para ele, da tela. As coisas que nos marcam. Vivo postando sobre aquilo de que gosto, que amo, mas nunca tento convencer os outros de que estou certo, porque acho que o cinema só consegue ser visceral como experiência pessoal, e o que é para mim talvez não seja para outro. Claro, existe um consenso, mas a unanimidade, como dizia Nelson Rodrigues, é burra. Por exemplo, falei há pouco com o Caderno 2 e nossa pauteira, Eliana Souza, me pediu as cotações para os filmes que estreiam quinta. Dei o máximo para Praia do Futuro, e Eliana observou que há muito tempo não sai uma cotação tão alta para um novo filme, só para os clássicos consagrados. Ex-ce-len-te. Gostaria de acreditar que o Festival de Cannes, que começa amanhã com Grace Kelly, vá me proporcionar novas descobertas viscerais. Vou estar postando diariamente, mas para a visão de conjunto terei de esperar até o fim, pelo dia 25.

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