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Mulheres (maravilhas?) no wuxia

Luiz Carlos Merten

20 de setembro de 2020 | 13h06

Fazia tempo que não via O Tigre e o Dragão. Estava zapeando ontem quando entraram as imagens do wuxia de Ang Lee. Assisti siderado às disputas de Michelle Yeoh e Zhang Zyhi, com o Chow Yun-fat entre as duas. Sempre me considerei fordiano de carteirinha – a grandeza dos derrotados. John Wayne/Tom Doniphom em O Homem Que Matou o Facínora. Ele vive na sombra, mas sabe o que fez. Não importa o que os outros pensem. O filme estreou em Cannes e no ano seguinte ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Fiz minha primeira entrevista com Ang Lee. Houve outras, por Tempestade de Gelo e Aconteceu em Woodstock. O curioso é que, mais tarde, zapeando de novo, entraram as imagens de O Segredo de Brokeback Mountain. Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, o primeiro Oscar de direção do autor taiwanês. Houve outro, por As Aventuras de Pi, mas aí confesso que alguma coisa se havia passado e eu já não gostava tanto de Ang Lee. Pi baseia-se no livro do canadense Yann Martel, que admitiu haver-se inspirado em Max e os Felinos, de Moacyr Scliar. Todo mundo ficou impressionado – eu, inclusive – com o avanço tecnológico, que fez com que o diretor e seus técnicos criassem aquele tigre no computador. OK, brilhante, mas e daí? Seduzido pela tecnologia, Ang Lee prosseguiu nessa via, experimentando mais e mais em A Longa Camninhada de Billy Lynn e Projeto Gemini. Billy Lynn foi feito em 3D, 4K e 120 frames por segundo, o que prometia uma imagem muito mais nítida e grandiosa. Lembro-me de haver assistido ao filme numa telona, em Paris, no Les Halles, na volta de Berlim. Até hoje não sei se vi o filme sonhado por Ang Lee, nos tais 120 quadros, mas a história do soldado que sobrevive a um ataque no Iraque e é levado aos EUA para um tour triunfal, antes de regressar ao campo de batalha, deveria ser um ataque ao militarismo da era George W. Bush, mas não me produziu muito impacto. Sem exagerar na técnica, Clint disse o essencial sobre o assunto em A Conquista da Honra. Pior ainda foi o Gemini, em que Will Smith copntracena com uma versão mais jovem dele mesmo. Por mais eletrizantes que fossem as cenas de ação – a perseguição de moto -, os olhos do ‘jovem’ Will entregavam que não era humano. Parecia um personagem de videogame invadindo o cinemão. Sei lá, decepcionei-me com o Ang Lee. Estou curioso para saber se ele vai prosseguir nessa via. Se sim, boa sorte, mas eu, pelo menos, já vou ver com o pé atrás. De volta a O Tigre e o Dragão, peguei-me pensando em outro grande autor de Taiwan, maior ainda, Hou Hsiao Hsien, e sua Assassina, pelo qual ele ganhou o prêmio de direção em Cannes, em 2015. Outro wuxia – outra guerreira. O empoderamento chegou antes ao cinema do Oriente.

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