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Mudbound me fez viajar no tempo

Luiz Carlos Merten

31 Janeiro 2018 | 22h30

Um pouco por causa da Mostra de Tiradentes – mas o debate sobre etnias vem de longe e já estava em Gramado, no Recife, etc -, quando cheguei para a sessão de Pantera Negra, sentei-me à frente e automaticamente olhei para trás. Pode ser que houvesse mais um, ou uma, mas consegui contar um crítico/jornalista negro. Um! Hoje pela manhã, fui ver Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi, de Dee Rees. Desde que ouvi falar do filme – dois soldados, um branco e outro negro, voltam da experiência na 2.ª Guerra, na Europa, para o Sul dos EUA, agrário e racista -, tinha muita vontade de vê-lo. Tentei na Argentina, onde não tinha distribuição para o cinema. Não encontrei nada na Netflix. Minha vontade de ver era tanta que eu teria vencido a resistência. Tenho de agradecer à Diamond, que comprou o filme para o Brasil. Foi muito forte para mim, e de novo, na sala cheia da Reserva Cultural, contei só um jornalista negro. Outro! Dois! Mudbound está fazendo história no Oscar, e não é, claro, pela atriz negra indicada para melhor coadjuvante – Mary J. Blige -, mas pela diretora de fotografia, a primeira mulher a concorrer na categoria. Rachel Morrison é branca, mas tem trabalhado com Ryan Coogler – Fruitvale Station/A Última Parada e (sim!) Black Panther. Lembrei-me de um polêmico filme de Otto Preminger nos anos 1960, O Incerto Amanhã/Hurry Sundown. O soldado (branco) John Philip Law volta para casa, também após a 2.ª Guerra, na Georgia. É pobre, e o ricaço da região quer avançar não apenas sobre suas terras, mas também sobre as de Robert Hooks, negro pobre que vive com a mãe. Ela foi babá de Jane Fonda, casada com Michael Caine, o branquelo canalha, que chega a fraudar um documento de posse para expulsar Beah Richards, a black mamma. Não me lembro de muita gente que tenha gostado de O Incerto Amanhã. Preminger já se havia atracado com o racismo em dois filmes mais conceituados, Carmen Jones e Porgy e Bess, ambos com a deslumbrante Dorothy Dandridge, que foi sua amante. O que mais me encantou, na época – nunca mais revi o filme -, foi que Preminger transformou outra negra, Diahann Carroll, a mulher de Hooks, na personagem mais forte e íntegra da história. Incerto Amanhã é de 1966, em pleno ano do Poder Negro, e foi descartado por muita gente como oportunista e/ou provocador. Eu tendo a vê-lo de outra forma. Com esse filme ocorre uma coisa curiosa. Muitas vezes, quando quero escrever Judith Butler, tenho de me policiar porque sai no automático Judith Crist. Essa Judith foi uma crítica que, nos anos 1960, foi pioneira ao levantar questões de gênero na produção de Hollywood. Lembro-me que ela bateu forte numa cena de O Incerto Amanhã, quando Jane Fonda, no papel da mulher submissa, ajoelha-se aos pés de Caine, que está com as pernas abertas. Ela pega um daqueles instrumentos de sopro, um sax, e toca, numa simulação de sexo oral que fez furor na época. Judith Crist acusava Preminger de machismo, e muito mais. Naquele tempo, havia uma associação que promovia o Oscar da crítica – a melhor crítica do ano. Ela ganhou, e pelo texto sobre O Incerto Amanhã. A história que sempre ouvi é que Preminger lhe enviou flores, cumprimentando-a pelo sucesso profissional – que consistira em demoli-lo. Eram outros tempos.