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Mostra 12/Uma divagação

Luiz Carlos Merten

06 de novembro de 2016 | 09h03

E a 40ª Mostra vai virando lembrança…Mas é bonito ver a corrida do público pelos filmes da repescagem. Ontem, no início da tarde, já estavam esgotados os ingressos para os filmes da noite, o iraniano O Apartamento, de Asghar Farhadi, do qual gostei muito, mais que de O Passado, e o venezuelano El Amparo, de Rober Calzadilla, que venceu o troféu Bandeira Paulista, outorgado pelo júri oficial. Naquela noite, no Parque do Ibirapuera, enquanto esperávamos pela cerimônia de premiação, conversei com Jeferson De sobre a seleção do público. Não havia visto muitos filmes da competição de novos diretores, digo entre os selecionados pelo público, mas com, certeza, com base nos que vi, havia coisas muitíssimo melhores, incluindo possíveis concorrentes brasileiros – como Redemoinho, de José Luiz Villamarim, que nem entrou nas deliberações. Enfim, não serei eu a contestar o método democrático criado por Leon Cakoff, mas que as escolhas andam muito tímidas, conservadoras, ah, isso andam. Estou falando de forma, não de fundo, porque o filme vencedor, El Amparo, toca num tema que, infelizmente, é atual em todo o continente, talvez no mundo. O Exército promove um massacre de pescadores e, ao dar-se conta da cagada, transforma os dois sobreviventes em… terroristas. Agora mesmo, ocorreu aqui. Estava na capa dos jornais de ontem, uma briga de trânsito, um policial matou um taxista. Alegou legítima defesa. A família, os colegas, todo mundo jura que o cara não tinha arma.O horror, o horror… De casos como o de Amarildo, o noticiário está cheio. O que quero dizer é que, no encerramento da Mostra, teremos o Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, numa belíssima projeção em 35, como diretor exige, no projeto – nos projetores, são dois – impecáveis do Cinesesc. Imagino que os ingressos já estejam esgotados, porque há um tititi muito grande e Luiz Fernando, que fez forfait no Rio, vem para o debate com o público, após a exibição de quarta, 9. Vai ser um fecho de ouro para a 40.ª Mostra.Só quero lembrar, pegando carona no fato de Lavoura Arcaica ser adaptado (transcriado?) do romance de Raduan Nassar, que, em matéria de cinema e literatura, voltando ao circuito ‘normal’, estamos bem servidos. Quem viu O Mestre dos Gênios certamente gostou do belo filme de Robert Grandage sobre a ligação do editor Max Perkins com o escritor Thomas Wolfe, mas tem coisa ainda melhor – o Indignação de James Schamus, baseado em Philip Roth, puta filme. Fui dos que bradaram contra ‘James’, quando foi presidente do júri em Berlim. ‘Shame on you, Mr. James”, por haver premiado aquele chinês estiloso, meia boca, Black Coial, Thin Ice. No Festival do Rio, onde mostrou Indignação, e o filme é produzido por Rodrigo Teixeira, Schamus me disse que o júri de Berlim foi uma experiência maravilhosa, vendo e discutindo filmes com jurados de todo o mundo, representantes de diferentes culturas. Como presidente, poderia ter exercido sua autoridade, mas o grupo estava muito dividido, gostando de muita coisa, mas não cerrando fileiras em nada. O chinês entrou de consenso. Por que não? Basta ver Indignação, na contramão de Black Coal, Thin Ice, para ver que a praia dele, autoral, é outra. Achei perfeitamente razoável. Sei bem o que é ser voto vencido em júris. Mortifica-me que o melhor, para mim, filme do recente Festival de Brasília – Vinte Anos, de Alice de Andrade -, tenha recebido do júri que eu integrava apenas um prêmio de trilha. Alice, por sinal, não ficou nem entre os finalistas para o Bandeira Paulista, eleitos pelo público. Poderia – é um segundo filme. Vamos ver se, para o ano que vem, o público votante da Mostra arrisca-se mais.