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Mostra SP (1)/A título de ‘aquecimento’

Luiz Carlos Merten

19 Outubro 2015 | 10h59

Só agora, depois de emendar o Festival do Rio com a Mostra CineBH, começo a me debruçar sobre a Mostra de São Paulo, que começa na quinta-feira. Vai ter muita coisa boa. Muita coisa mesmo. Como sempre os vencedores dos grandes festivais despertam um interesse especial nos cinéfilos, mas não creio que Dheepan, de Jacques Audiard, que venceu Cannes, seja melhor que outros filmes que vi na própria Croisette. Impressionei-me muito com O Filho de Saul, de Lazslo Nemes, mas também não creio que tenha gostado mais que de A Terra e a Sombra, de Cesar Augusto Acevedo Garcia, As 1001 Noites, de Miguel Gomes, especialmente o Volume 2, O Desolado, ou O Sabor da Vida, de Naomi Kawase. Em Berlim, amei O Botão de Nácar, de Patricio Guzman, Ixcanul, de Jayro Bustamante, Aferim, de Radu Jude, A Virgem Jurada, de Laura Bispuri, e Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi, que vai receber o prêmio Humanidade. Brasileiros: como não fui a Brasília, estou louco para ver o novo Aly Muritiba, Para Minha Amada Morta. Recomendo que fiquem atentos para Aspirantes, de Ives Rozenfeld, que era meu favorito para os prêmios no Rio, mas ganhou só parte deles (melhor diretor e ator, o excepcional Ariclenes Barroso). Também quero ver o Ralé, de Helena Ignez, que perdi no Rio, e sugiro que, independentemente do longa com o qual formará programa duplo, não percam o curta Dá Licença de Contar, de Pedro Serrano. A Mostra vai homenagear o centenário de Mario Monicelli com uma retrospectiva de cinco de seus filmes. Scuisa, mas como Os Companheiros e O Incrível Exército de Brancaleone não estão, passo o programa adiante. (De qualquer maneira, A Grande Guerra e Os Eternos Desconhecidos são bem bacanas e Filhas do Desejo vai permitir que se avalie e parceria com Steno. Não estou muito seguro de que as comédias de ambos só fossem boas por causa de Monicelli.) Os cinco títulos integram o que a Mostra está chamando de Apresentações Especiais. Outros títulos dessa seleção são Esse Mundo é Meu, de Sérgio Ricardo, O Bravo Guerreiro, de Gustavo Dahl, e As Cariocas, com os episódios de Walter Hugo Khouri e Roberto Santos. Sinto muito por quem pensa diferente, mas a obra-prima de Roberto não é seu Augusto Matraga (o de Vinícius Coimbra é melhor), mas a Íris Bruzzi e a Esmeralda Barros lavando aquele carro em A Desinibida do Grajaú. Também terá apresentação especial Catedrais da Cultura, em que autores de diversos países tentam capturar a ‘alma’ de prédios emblemáticos. Vi em Berlim no ano passado e gostei demais. Se você é arquiteto ou quer estudar arquitetura, ou se simplesmente se interessa pelo espaço nos filmes (e como não se interessar?), é seu programa obrigatório na 39.ª Mostra. Dois ou três episódios são absolutamente geniais. Sob a rubrica Retrospectiva, a Mostra homenageia a Film Foundation criada por Martin Scorsese para preservar clássicos. Meu editor, Ubiratan Brasil, vai achar All That Jazz, de Bob Fosse, o programa mais importante da série. Afinal, Fosse, musical… Tem um Scorsese na seleção – O Rei da Comédia, com Robert De Niro e Jerry Lewis -, mas os ‘meus’ imperdíveis são A Cor da Romã, de Serguei Parajanov (um dos filmes cults no panteão de meu amigo Gabriel Villela), Bom-Dia Tristeza, de Otto Preminger (que ‘inventou’ Jean Seberg para Jean-Luc Godard), O Bandido Giuliano, de Francesco Rosi, Rashomon, de Akira Kurosawa, Um Caminho para Dois, de Stanley Donen (o filme ‘resnaisniano’ do diretor de Cantando na na Chuva) e, acima de todos, Rocco e Seus Irmãos, de meu amado Luchino Visconti. Em BH, um amigo, que sabe da minha paixão por Visconti, me disse que Luchino, e menos ainda Rocco, inspiram a jovem crítica. Não resisti – é por isso que ela é ‘jovem’. Quando, ou ‘se’, amadurecer vai descobrir quanto o filme é grande.