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Mostra de SP (8)/Como os Pafundi viraram Parondi em Rocco

Luiz Carlos Merten

27 Outubro 2015 | 10h52

Permitam-me voltar a Rocco. Contei num post de ontem como conheci Suso Cecchi D’Amico e como virei seu interlocutor em conversas por telefone, ao longo dos anos, até sua morte, em 2010. Nunca comentei com ela o estranhamento que sempre me causou um brevíssimo momento do filme de Luchino Visconti. Quando Alain Delon, ainda vestido de soldado, volta do Exército e encontra a mãe sozinha, porque todo mundo foi ao batizado de Antonio, o filho de Vicenzo e Ginetta, ele chega diante da porta e há uma placa, presumivelmente com o nome da família. E ali diz Pafundi, não Parondi. Tenho cinco livros sobre Visconti na minha casa e hoje consegui localizar um que nem sequer havia folheado. Chama-se justamente Visconti e a autora é Monica Stirling. Fui procurar a parte relativa a Rocco, não para resolver esse problema, mas foi uma leitura muito reveladora. Sempre soube das dificuldades que Visconti enfrentou com a censura, por causa da cena da morte de Nadia. Monica conta que a cena já nasceu controversa. Visconti queria filmá-la num dique na periferia de Milão, mas a administração local começou a criar entraves. Havia sempre um papel a mais, que a produção tinha de providenciar. No limite, pediram para ler o roteiro e interditaram o local, considerando que a cena seria ‘obscena’. Visconti terminou filmando em Roma, num dos diques do Rio Tigre, o que mais se assemelhava ao de Milão – era um detalhista e, como tal, se prendia muito a essas minúcias. Pronto o filme, o Procurador da República foi à Justiça contra Rocco, pedindo a interdição do filme justamente por causa das facadas em Nadia. Visconti sempre achou que, sendo um crime de honra, Simone tinha de dar vazão ao seu misto de amor e ódio esfaqueando Nádia de forma descontrolada, muitas vezes. Se fosse um só golpe, ele achava que seria crime premeditado.Simone leva a faca, mas chega pedindo que Nadia volte para ele. É a fala dela que o confronta com o animal dentro dele. E é curioso, nunca me havia dado conta – ainda é possível ‘descobrir’ Rocco! -, que o texto dela é shakespeariano. Reproduz a fala final de Iago, em Otelo. Rocco, o filme, realmente, foi censurado. A cena teve de ser atenuada – menos facadas. Outros filmes também estiveram na mira do Vaticano (e da Procuradoria) e foram censurados, na mesma época, na Itália. A Doce Vida, de Federico Fellini. La Giornata Balorda/Um Dia de Enlouquecer, de Mauro Bolognini. Passaram-se 18 anos até que, em 1978, dois anos após a morte de Visconti, uma tal Sociedade Italiana de Cinefilia, ou coisa que o valha, conseguiu que as cenas cortadas fossem restauradas em todos esses filmes e eles foram, finalmente, exibidos completos para o público. Ainda não falei dos Pafundi. Era o nome original da família, um nome comum, como ‘Silva’, no Sul da Itália, e na Lucânia. Quando as facadas em Nádia viraram um assunto nacional, um juiz também chamado Pafundi ameaçou pedir a interdição do filme e impedir sua exibição no Festival de Veneza. Visconti nunca trabalhou com som direto. Dublava seus atores. Para evitar maiores problemas, o produtor Goffredo Lombardi e ele voltaram ao som, Pafundi virou Parondi, mas na plaquinha o nome permanece. Para um perfeccionista como Visconti talvez fosse a prova do crime, a evidência das dificuldades que ele teve de enfrentar em sua obra-prima.