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Mostra de SP (7)/Esse Mundo É Meu

Luiz Carlos Merten

27 Outubro 2015 | 10h15

Tentei ver ontem Garoto, de Júlio Bressane, mas não consegui. Cheguei com antecedência, mas a sala estava com lotação esgotada. Por via das dúvidas vim pela manhã para a redação do Estado. Quero fazer logo meu material para tentar ver Esse Mundo É Meu, de Sérgio Ricardo, às 2 da tarde. Comemora-se hoje o Dia Internacional do Patrimônio Audiovisual e a Mostra integra-se à proposta da Unesco, apoiada pela Associação Internacional de Arquivos de Filmes, que pretende sensibilizar a sociedade civil e os governos para a necessidade de preservação da nossa memória cinematográfica. A Mostra já vem exibindo clássicos restaurados pela The Film Foundation, entre eles Rocco e Seus Irmãos, o clássico de Luchino Visconti ao qual voltarei, daqui a pouco. Hoje serão exibidos diversos filmes brasileiros restaurados, e um deles é o que Sérgio Ricardo, cantor, compositor e também cineasta, famoso pela trilha de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Gláuber Rocha, e também pelo célebre episódio num dos festivais de música dos anos 1960, quando se exasperou com a reação da plateia, que não o deixava cantar, quebrou o violão e foi embora, no meio da apresentação de Beto Bom de Bola. Sérgio fez alguns filmes e, no meu imaginário, o melhor é Esse Mundo É Meu, fotografado pelo irmão dele, Dib Lufti, e interpretado por ele, Léa Bulcão, Antônio Pitanga, Agildo Ribeiro, Maria Helena Dias, Ziraldo. Esse Mundo É Meu conta a história de dois homens, um branco e outro negro, ambos marginalizados. Foi o primeiro filme fotografado por Dib, o homem câmera, a mão mais potente do Cinema Novo (e do cinema brasileiro em geral). Na mão de Dib Lufti, a câmera só tremia se fosse exigência dramática da cena. E a Léa Bulcão! Até hoje eu a guardo. Uma das presenças mais humanas e intensas do cinema do País. Sempre quis rever Esse Mundo É Meu, embora tenha medo de me decepcionar. Vai ser hoje (espero). E à noite quero ver A Jovem Rainha, de Mika Kaurismaki, que será seguido de debate com o diretor. A jovem rainha é Cristina da Suécia, que Greta Garbo já biografou num clássico de Rouben Mamoulian, Rainha Cristina, de 1933, um grande filme fundador da própria linguagem do cinema. Cristina foi criada como homem e, na versão de Mamoulian, percebemos sua perturbação ao se envolver com John Gilbert. Vão para a cama e ela acorda e fica olhando o quarto, tocando os objetos, como se quisesse processar na memória aquele momento que vai guardar para sempre. Nas vezes em que falei com Alain Resnais, nunca houve clima parta comentar com ele, mas tenho certeza de que a cena da estalagem de Rainha Cristina o alimentou para Hiroshima, Meu Amor. No filme de Kaurismaki, li no católogo da Mostra, a perturbação da jovem rainha é provocada pela atração que ela sente por sua aia. São minhas prioridades de hoje, e o m ais que vier será lucro.