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Mostra de SP (5)/Rocco!

Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2015 | 11h56

Havia visto em Cannes Classics, em maio, a versão restaurada de Rocco e Seus Irmãos. Não me lembro exatamente que filme da competição deixei de ver, porque o horário batia, mas talvez tenha sido O Filho de Saul, de Laszlo Nemes, que tive de correr feito um louco para recuperar – numa sessão de mercado, quando o filme já havia virado a sensação do festival. Não me lembro exatamente quando vi Rocco pela primeira vez, mas deve ter sido em alguma reprise do filme, em 1963, quando já tinha (ou estava prestes as completar) 18 anos. Desde então, revi muitas vezes o filme de minha vida. Sei que Luchino Visconti não é exatamente o preferido da jovem crítica, mas o que se há de fazer? Um dia crescem, amadurecem, ou não. Uma dessas 365 vezes que vi Rocco – não foram tantas, brinco – foi em Veneza, no começo dos anos 1990, quando a roteirista Suso Cecchi D’Amico foi homenageada pela Mostra d’Arte Cinematografica. Era bem mais jovem – 45 anos, por aí -, quando fui entrevistar a ‘Signora’. Ela percebeu meu amor pelo grande Visconti, a entrevista virou conversa, Suso me deu seus telefones e, pelos anos seguintes, fui seu interlocutor regular. Nunca nos reencontramos, mas eu ligava e conversava com a ‘Signora’. Falávamos do lançamento de DVDs de grandes filmes de Visconti, da situação do cinema italiano, da vida. E, então, um dia, ela não mais atendeu. Não muito tempo depois, em 2010, morreu, quase centenária. Tinha 96 anos. Nasceu Giovanna Cecchi e era filha de Emilio Cecchi, um famoso crítico literário. Não pude deixar de lembrar de Suso ao rever ontem, mais uma vez, no Cine Mário, da Biblioteca Mário de Andrade, o meu Visconti do coração. Meu amigo Dib Carneiro também foi. A sessão terminou depois da 1 da manhã e fomos comer o sanduíche de pernil do Estadão. Saímos do universo popular, suburbano de Visconti e caímos no clima de mercado público – digo isso com carinho – do bar e lanchonete que leva o nome do jornal. Come-se bem e barato, e a frequência é diversificada. Quando estávamos saindo chegaram as travas, em bando, poderosas. Mais do que Visconti, senti-me transportado ao universo (linguajar) de Pier-Paolo Pasolini. Por sinal, na próxima segunda-feira, 2 de novembro, vão se completar 40 anos de sua morte. 40 anos! Meninos, eu enterrei Pasolini na antiga Folha da Manhã, em Porto. O tempo passa, o texto corre e eu volto a Rocco. Lembro-me do que me contava Suso. Tudo começou em 1957/58, quando Visconti lhe falou pela primeira vez do seu desejo de fazer um filme sobre as migrações internas, na Itália. Os italianos do Sul miserável migravam para o Norte industrializado. Visconti queria contar a história de uma família. A mãe viúva e seus cinco filhos. Teriam de ser cinco, e ele espalmava a mão aberta, como faz Rosario Parondi/Katina Paxinou no filme. Visconti convocou escritores, entre eles Vasco Pratolini, para escrever a história de cada irmão. Insistia no meio violento do boxe e no crime de honra. Suso me contava como, avessa à violência, frequentou durante mais ou menos um ano os ginásios de boxeadores de Roma, para suas pesquisas. Visconti discutia o desenvolvimento das histórias com cada escritor (Pratolini, Enrico Medioli, Massimo Franciosa, Pasquale Festa Campanile), levava os textos e suas observações a Suso, mas coube a ela fazer a redação final. Cada vez que revejo Rocco me encanta mais a mãe, Hécuba meridional, e por isso Visconti quis a trágica grega Katina Paxinou, mas também me perturba a complexidade do triângulo Rocco/Nadia/Simone. Diante da violência do irmão, que estupra Nadia, Rocco recua. Sente-se culpado por haver transgredido essa lei não escrita, ao se envolver com a (ex) mulher de Simone. Há algo de incestuoso nesse triângulo, na ligação dos irmãos, na intensidade do abraço de Rocco e Simone na cama, depois da confissão do segundo de que matou Nadia (‘e ela não queria morrer’, ‘Non voleva morire’, ele chora, e grita). Creio que nunca vou me cansar de (re)ver Rocco e ainda espero ter tempo de rever outras vezes, mas para mim Rocco tem de ser uma experiência coletiva. Tenho o DVD, mas preciso ver o filme com plateia, eletrizado pela reação, seja de admiração ou repúdio, dos outros. Rocco devia ser produzido por Franco Cristaldi, que já era o protetor de Claudia Cardinale, mas ele queria interferir na personagem dela – Ginetta – e Renato Salvatori, um astro de comédia que queria fazer seu papel ‘sério’, costurou a aproximação de Visconti e Goffredo Lombardo, da poderosa Titanus, a maior empresa italiana da época. O filme foi um estouro de bilheteria e a Titanus produziu, na sequência, O Leopardo. Rocco era um filme caro, foi feito em co-produção com a França. Os co-produtores franceses tentaram impor duas jovens estrelas francesas da época – Brigitte Bardot ou Pascale Petit -, mas Visconti, que já dirigira Annie Girardot no teatro (Dois na Gangorra/Two for the Seasow), nunca abriu mão de que ela fosse sua Nadia. Rocco era outra incógnita e, depois do pugilista de Marcado pela Sarjeta, Lombardo queria que Paul Newman fizesse o papel. Conta a lenda que Delon, aos 23 anos, foi apresentado ao diretor por sua agente, durante uma festa. ‘L’ho trovato’, ele teria dito. Encontrei meu Rocco. O filme é a fábula de dois anjos. O caído, Simone, e o que se sacrifica, Rocco, daí a cena do rompimento com Nadia no alto do Duomo, a catedral de Milão, para estar perto do céu. Já perguntei ao próprio Coppola – duas vezes – se Rocco foi seu modelo estrutural para o Chefão. Ele jura que não. Vendo e revendo o filme, tudo remete o Chefão a Rocco. A família, os irmãos, a montagem paralela (a luta e o assassinato, o batismo e a onda de mortes), a trilha de Nino Rota, tudo aproxima os dois filmes. Além de grande diretor de teatro e cinema, Visconti dirigiu óperas. Seu cinema é operístico. Nunca percebi tanto como ontem a semelhança com a Carmen. Rocco/Escamillo, Simone/Don José. Sei de gente que acha que a crença num futuro melhor e na organização da classe operária – ‘o mundo está mudando’, diz Ciro – data o filme. O encontro de Rocco e Nadia e o diálogo deles no café, o discurso de Rocco na festa de sua vitória, falando no sacrifício ofertado pelo pedreiro para que a casa (a família) cresça sólida e o diálogo de Ciro e Lucca, quando o operário especializado da Alfa Romeo explica ao irmão mais jovem porque acha que só ele voltará ao ‘paese’, tudo aquilo me toca de um modo muito particular. Vi Rocco pela primeira vez aos 18 anos. Mais de 50 anos depois – 52! -, o filme ainda me possui.