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Mostra de SP (3)/Filme-manifesto?

Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2015 | 10h35

Escrevi o título e empaquei. Tem hífen? O corretor do Estado, atualmente, elimina todos os hífens. Parece que sumiram da língua escrita. Fiquei bem perturbado com Fome, de Cristiano Burlan, que vi ontem à noite. De cara devo dizer que foi apenas meu segundo filme na Mostra, depois de Meu Amigo Hindu, o Babenco da abertura. Gostaria de ter visto o Bressane ontem à tarde, Garoto, mas não deu. Estava preso na redação, fazendo matérias. Gostaria de ter visto também o Preminger, Bom-Dia Tristeza, que é um dos filmes da minha vida. Quando entrevistei Bernadette Laffont, poucos meses, dois ou três, antes de sua morte, ela me contou que era o plano B de Godard para o Acossado. Se não conseguisse Jean Seberg, a quem amou depois de ver o Preminger, Godard faria o filme com Charles Aznavour e ela, mas se Jean topasse, ele faria com outro ator, e foi aí que entrou Jean-Paul Belmondo. O filme, com certeza, teria sido outra coisa, com o outro elenco. Seria, esse outro filme, como é, o manifesto da nouvelle vague? Estou com preguiça de procurar, na antologia Un Oficio del Siglo XX, a crítica apaixonada que Guillermo Cabrera Infante escreveu sobre Bonjour Tristesse. Como eu, ele é apaixonado pelos créditos de Saul Bass, aquela lágrima que não cessa de rolar no meu imaginário. Queria rever As Mil e Uma Noites. Vi os volumes 1 e 2 do filme de Miguel Gomes em Cannes, O Inquieto e O Desolado, do qual gosto mais. Mas vi só um pouco do terceiro, O Encantado. Tirei o ingresso para O Inquieto, hoje, mas como perdi ontem o Preminger e os horários batem, estou bem dividido. Volto ao Fome. Não estava em Brasília, não participei dos debates sobre o filme, não li nada, mas Bernardet, sem-teto, andarilho, o título, tudo me remete ao romance do sueco Knut Hansen, que teve uma adaptação ótima. Existe algo – ecos? – da outra fome, mas Cristiano, a quem admiro, fez o filme dele. Confesso que ando com má vontade com o Bernardet performer, não ator. Não tem nada a ver com esse embate tão moderno entre crítica online e acadêmica. Assim como não tenho celular, não me ligo em uma nem em outra. Eventualmente, quando preciso fazer alguma pesquisa, encontro textos na internet. Abandono a maioria. São preconceituosos demais. Gostei de ver Fome, gostei de muita coisa no filme, gostei do Bernardet. Em geral, nos debates de que participei, pós filmes com ele, os diretores dizem que é o mais dócil dos atores. Como é um cara muito inteligente e sedutor, Bernardet me passa a impressão de terminar manipulando esses diretores, sem que eles se deem conta. Cristiano tem mais pulso, ou percebendo isso já fez do próprio Bernardet seu personagem. Não sei quanto trabalharam juntos, mas Fome é sobre esse sem-teto que vai se revelando em sucessivos encontros/embates com a cidade (a pesquisadora, o casal ‘generoso’ que tenta lhe empurrar seus restos de comida goela abaixo etc) como alguém sofisticado, culto. No encontro com o ex-aluno (Francis Vogner, curador da Mostra CineBH com Pedro Butcher) descobrimos que o comunista bicha, como o chama outro morador de rua, é um pesquisador do cinema brasileiro que foi para a rua ao cabo de tanto desconstruir o cinema, para se desconstruir a si mesmo. Gosto muito das performances de Bernardet nos semáforos, mas acho que o filme tem um problema, no começo. Tenho uma relação muito forte com a cidade, com o centro de São Paulo. Conheço aquelas locações (muitas, pelo menos) e sei que a invisibilidade social é forte. Ninguém olha para sem-teto, mas um sem-teto seguido por uma câmera, na civilização da imagem, é algo que a maioria olha (e se interessa). Fiquei tocado com o Mozart, mas confesso que a conversa sobre o cinema me pareceu pesada demais. Deu ao filme pobre, mas de coração grande, como o definiu o diretor, um tom de manifesto. E, agora, o que vamos fazer com Fome? Em termos de ‘mercado’, o filme, mesmo bem feito (com imperfeições facilmente integráveis ao projeto), é nulo. Sobra o debate. No impresso? Na internet? Na academia? É curioso que a deambulação me fez lembrar, mesmo não sendo sem-teto, o transeunte de Eryk Rocha. Gostar, gostar mesmo, gostei mais do Transeunte.