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Mostra de SP (2)/Começou!

Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2015 | 08h50

É uma pena que a Mostra, sendo reconhecidamente importante para o calendário cultural da cidade, não seja tão importante a ponto de merecer uma entrada ao vivo nos grandes jornais televisivos. A abertura e o encerramento de Cannes são transmitidos ao vivo para toda a França. Isso obriga ao cumprimento de uma regra básica – o horário. A Mostra começou com atraso de uma hora. Teve todos aqueles discursos de ‘autoridades’. Se era para ser um teste de popularidade, só o prefeito Fernando Haddad foi aprovado. O cara foi aplaudidíssimo no palco e ainda ouviu do homenageado da noite – Hector Babenco, diretor do filme de abertura – que era um raro político que o cineasta respeitava. Mais aplausos calorosos. E veio, quase às 10 da noite – o convite dizia 20 h, ou seja, 8 -, Meu Amigo Hindu. Havia adorado a conversa com Babenco em sua casa. Um filme de morte para falar de amor à vida e ao cinema. Não me sinto confortável para ‘criticar’ Meu Amigo Hindu. Um cara que conheceu o inferno, como Babenco, combatendo a doença e outros infortúnios que podem abater um homem, merece respeito. Ele não tem medo nem vergonha de se expor. Citou o surrealista André Breton no palco. A beleza será convulsiva – ou não será. Mas, na ficção pelo menos, Babenco não é generoso, exceto com o ‘irmão’. É duro especialmente com as mulheres, a mãe e a mulher que representa todas as mulheres (mas, no fundo, é uma só, acho). Gosto de cenas pontuais. Willem Dafoe emagreceu sei lá quantos quilos para fazer o cineasta dentro do filme, alter ego de Babenco. Maria Fernanda Cândido, quase tão devastada quanto ele, não perdeu a beleza e nunca foi melhor atriz. São coisas que contam. Mas o filme é desigual. E loooonnngooo. Termina umas três ou quatro vezes. O fim-fim é com Barbara Paz recriando o balé de Gene Kelly, cantando na chuva, no clássico que o ator e bailarino co-dirigiu com Stanley Donen. Barbara canta e dança sob a chuva, sem guarda-chuva. Chovia lá fora, na saída. Também não tínhamos guarda-chuva, Ubiratan Brasil, meu editor, e eu. O filme, de alguma forma, continuou naquela dificuldade para se conseguir um táxi. Mas começou (a Mostra)! A partir de hoje, a 39.ª edição do maior evento da cidade é do público, com 312 títulos à sua escolha. A maior atração do dia é O Filho de Saul, do húngaro Laszlo Nemes, que venceu os prêmios especial do júri e da crítica em Cannes. Se você não comprou o ingresso, desista. Ou tente conseguir algum na bilheteria. O Filho de Saul foi o filme que mais rapidamente esgotou na Central da Mostra.