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Mostra de SP (19)/O tempo e as atrações não param

Luiz Carlos Merten

08 Novembro 2015 | 09h18

Volto aos posts da Mostra. Fui ver ontem à tarde, na repescagem, O Culpado, de Gerd Schneider, que estava em alguma seção paralela de Berlim. Li no catálogo que Gerd estudava teologia católica e se preparava para ser ordenado padre quando trocou o rumo e preferiu fazer cinema. O Culpado é seu primeiro longa. Um padre que trabalha numa penitenciária vê o amigo, também padre, ser acusado de abuso sexual. Um garoto, depois, outro. Ele entra em crise de consciência e de fé. A Igreja adota uma solução interna que não o satisfaz. A Igreja é uma mãe e ninguém deve bater na mãe, mas no final é o que Jakob parece estar disposto a fazer. Saí do cinema impactado e até não devo ter sido muito coerente ao trocar duas ou três palavras com Neuza Barbosa, que encontrei na saída. Mas é curioso. Agora, no retrospecto, quando penso no filme não estou mais tão seguro de haver gostado tanto. À noite, fui a mais Mostra. Havia perdido a sessão de Tudo Que Aprendemos Juntos, de Sérgio Machado, na Sala São Paulo. Fui ontem fechar a outra ponta vendo o filme em Heliópolis. Foi uma sessão linda, ou que começou linda. Era ao ar livre, começou a garoar, a garoa virou pingos de chuva e eu terminei pegando carona e fui embora. Pensei comigo que, sem celular para pedir carro no aplicativo, talvez tivesse dificuldade para sair do local, o CEU Arlete Persoti, na Estrada das Lágrimas. Me deixaram no metrô Santa Cruz, fui até a Sé e desci na República. Ia jantar com meu amigo Dib Carneiro e com Kika Freira, que dirige a peça dele, Pulsões. Está cada vez mais difícil encontrar um orelhão que funcione no Centro. Testei vários, até saber onde estavam. Na esquina famosa, Ipiranga com São João, encontrei Anna Muylaert, que saía de um debate com mulheres. Êta, mundão pequeno. Publico hoje no Caderno 2 a entrevista com Petra Costa, diretora de Elena e Olmo e a Gaivota, que estreou na quinta-feira. Tenho amigas feministas que odeiam a Petra e não perdoam que tenha nascido em berço esplêndido, como se, por causa disso, sua adesão a causas sociais e políticas – a questão do corpo feminino é política -, ela não pudesse ser sincera. Não havia gostado de Elena, mas Olmo tem outro fôlego. E Petra estourou na rede essa semana com um vídeo que virou viral, com milhões de acessos, justamente sobre o direito ao aborto e a denúncia dos abusos verbais e físicos que as mulheres sofrem por esse Brasil afora, da presidente à doméstica, passando pela diretora (Anna Muylaert, o episódio no Recife). Tergiversei, como sempre. Volto à Mostra. Renata de Almeida fez a apresentação em Heliópólis. Havia convidados importantes, além do diretor e do elenco. Sete e meia da noite, e tendo de estar no palco às 9, Lázaro Ramos devolveu Tudo Que Aprendemos Juntos à comunidade na qual filmou. Foi emocionante. Imagem e som estavam nos trinques, e eu estava achando o filme mais bonito que na sessão no Rio. Arrependi-me de haver saído. Ia passar frio, teria, talvez, me molhado, mas teria sido por uma boa causa. O diretor-presidente da Spcine, Alfredo Manevi, reafirmou seu compromisso com o desenvolvimento do cinema paulista e o secretário municipal de Cultura Nabil Bonducki prometeu criar salas nas comunidades para que mais público tenha acesso ao cinema, a preços populares e até de graça. Foi, está sendo, um fim de semana glorioso para os vencedores do Festival do Rio e da Mostra. Ontem pela manhã, horário do Brasil, noite anterior no Japão, Nise – O Coração da Loucura, de Roberto Berliner, que ganhou o Redentor do público, no Rio, venceu o Festival de Tóquio e Glória Pires foi melhor atriz. Lembro-me de outros filmes brasileiros bem recebidos em Tóquio, mas vencer creio que o Brasil nunca havia vencido, e Nise fez história. Ontem, Renata também anunciou, na abertura da sessão em Heliópolis, que Tudo Que Aprendemos Juntos foi o mais visto e o mais amado filme da 39ª Mostra. Ele venceu como preferido do público na categoria filme brasileiro, mas foi mais visto e votado que o vencedor estrangeiro. Tudo Que Aprendemos estreia dia 3 de dezembro. Nise, que eu saiba, no ano que vem. E, como janeiro e fevereiro são a temporada do Oscar, deve entrar só em março/abril. Tão longe… Eu tentava antecipar, para pegar carona no prêmio do Rio e, agora, do Japão.