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Mostra de SP (18)/Redescobrindo… Ponto Zero

Luiz Carlos Merten

04 de novembro de 2015 | 11h30

E a 39.ª Mostra termina hoje à noite com a atribuição dos prêmios do júri e da crítica. Dentro do peculiar formato desenvolvido pelo criador do evento, Leon Cakoff, o público faz a pré-seleção e indica os filmes de diretores estreantes sobre os quais trabalhará o júri. Nenhum filme brasileiro foi pré-selecionado e a verdade é que havia bem poucos filmes do Brasil credenciados entre os 88 títulos da competição de novos diretores. Repassando agora a lista contei seis, incluindo uma coprodução (A Terra e a Sombra), ou seja, menos de 10%. A maioria da produção nacional vai para o Foco Brasil, cerca de 68, concorrendo a prêmios específicos – em dinheiro -, que poderão ajudar no lançamento. Quem ganha o Troféu Bandeira Paulista esta noite, no Cinesesc? Estou tão curioso quanto qualquer cinéfilo que costume acompanhar a Mostra. Para dizer a verdade, não sei exatamente quais os critérios para que filmes brasileiros entrem na competição. Precisam inscrever-se? Deveriam ser inéditos ou, pelo menos, não ter sido premiados antes? Se o critério fosse simplesmente ser obra de diretor estreante até o segundo filme, Aspirantes, de Ives Rozenfeld, e Ponto Zero, de José Pedro Goulart, poderiam muito bem estar concorrendo. Fui rever ontem o filme do meu conterrâneo Zé Pedro. Em Gramado, quando vi o filme pela primeira vez, não havia gostado tanto. Dessa vez, embarquei. E achei o garoto que faz o protagonista, Ênio, maravilhoso. Em Gramado, Zé Pedro contou como encontrou Sandro Aliprandini após uma longa busca. Mas o piá, como se diz no Sul, era muito novo. Tinha só 13 anos e o diretor esperou um ano inteiro para ter o guri certo no papel. Mesmo com restrições, que agora não tenho mais, ao comentar a premiação de Gramado, perguntei como o júri tinha desconsiderado a ambição e importância de Ponto Zero como proposta estética. Gente ignorante, credo. Pode parecer pretensioso demais dizer que Zé Pedro Goulart, pelo método – e também pela ambição -, pode muito bem ser o ‘nosso’ Terrence Malick. Talvez seja até melhor. Não engulo muito o cinema cósmico de Malick, e o filme do Zé Pedro tem um pouco isso. A Árvore da Vida encontra Depois de Horas (do tempo em que Martin Scorsese era bom) e Ênio ingressa no pesadelo de uma noite de loucuras. Scorsese tratava a sua noite como um coito interrompido (e como comédia). Zé Pedro faz drama, e em dois atos, rompendo a estrutura narrativa aristotélica em três atos e a de cinco (quinária). O filme começa no cosmos, com a narrativa oral do astronauta que se perde no espaço, e prossegue com o menino que se afoga na piscina. Só nós conseguimos nos salvar, e o preço muitas vezes, senão quase sempre, é alto. Ênio, o pai, a mãe, a inevitável ruptura. A dor de crescer, de amadurecer. O que se ganha e o que se perde. Existem obras cujo tempo de decantação é maior. Zé Pedro fez um curta clássico, O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda. Demorou décadas para fazer seu longa. E não é porque ele começa no espaço, mas Ponto Zero é um óvni no cinema brasileiro atual. Não se assemelha a nada que estejamos vendo ultimamente. O diretor talvez pague um preço por isso, mas pelo menos terá feito o filme que quis.

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