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Mostra de SP (16)/Como O Encantado virou desencanto, e não por culpa de Miguel Gomes

Luiz Carlos Merten

03 de novembro de 2015 | 09h17

Quando era jovem em Porto Alegre e queríamos – coloco no plural porque erra uma batalha geracional, de Jefferson Barros, Hélio Nascimento, Hiron Goidanoich e eu -defender o cinema de Roberto Farias, falávamos de seus filmes comerciais como uma opção estética. Cidade Ameaçada, Assalto ao Trem Pagador, Selva Trágica. Não se dizia cinema de gênero. Hoje, o cinema de gênero está virando o avatar do cinema brasileiro. Policial, terror, até western, mas é curioso como nenhum autor encara o melodrama, como se ele pertencesse ao imaginário das novelas. Gosto de O Lobo Atrás da Porta, mas não consigo entender o frenesi dos coleguinhas pelo filme de Fernando Coimbra. É bom – ponto. Fui ver Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba, que venceu prêmios importantes em Brasília. Ainda não vi o longa de Cláudio Assis, com o qual, segundo soube, Muritiba polarizou as atenções e dividiu os Candangos. Fui com muita sede ao po(s)te, um pouco porque conheço o diretor, e o admiro, mas também porque Thiago Stivaletti, Luiz Zanin, todos me falavam maravilhas do filme. Fiquei desconcertado, perturbado, achei muito bem feito, mas não posso dizer que ‘gostei’. Certos filmes exigem decantação. Poderia enumerar uma pá de filmes que vi e me deixaram indiferente, e que depois (re)descobri. Engraçado ter escrito ‘pá’. Se a gente pusesse num cofre uma moeda cada vez que se diz pás na narração e nos diálogos de As Mil e Uma Noites, acho que teríamos o dinheiro para quitar a produção do filme de Miguel Gomes. Aproveito para tergiversar. O mundo está miudando, e não necessariamente para melhor. O público da Mostra, também. Êta gente mal-educada. Generalizo, o que é sempre um perigo, mas no domingo corri feito louco para ver o Volume 3 de As Mil e Umas Noites, O Encantado, o único que não havia conseguido concluir em Cannes, porque saí para uma entrevista. Cheguei tarde, encontrei um lugar na última fileira, na lateral esquerda (de frente para a tela). Sentei-me entre um cara e, à direita, duas mulheres. Acho que formavam um par, o problema não era esse. Deviam estar desde as 3v da tarde, para ver a trilogia. ‘Arranchadas’, como se diz. Falavam o tempo todo e se lixavam para os psius que o cara à minha esquerda lançava, quase tantos quanto os ‘pás’ na tela. Comiam, conversavam como se estivessem na sala de casa, e a do meu lado tirou o sapato e sacudia o pezinho, que não era pezinho, quase na minha cara. Por muito menos que isso vi o Leon Cakoff, criador da Mostra, armar barracos memoráveis em Cannes. Arrependi-me de não ter feito um, tirando as duas bruxas – as verdadeiras, não a garota do filme de Robert Eggers, que virou sensação, outro sinal de que o gosto do público da Mostra, que se há de fazer, anda ‘errático’ – da sala. Enfim, fecho o parêntese e volto a Aly Muritiba e a seu Para Minha Amada Morta. O filme é sobre um viúvo que chora a morte da mulher até descobrir que ela não apenas o traía como gravava o sexo com o amante. A cena é bem gráfica. Aparece o pênis ereto – tão esquisito escrever isso, é melhor ir direto ao ponto: p… duro – e ela dizendo que ele (o outro) é a melhor coisa que aconteceu em sua vida. O marido traído, o corno, surta. Move céus e terra até identificar o localizar o rival. Instala-se na casa dele para se vingar. O cara é crente, e aí já fico com o pé atrás. Não sou e nem gosto, mas sempre me parece que os diretores vêm com três (ou mais) pedras na mão contra os pastores, que até merecem, mas o importante é aquilo que João Moreira Salles dizia em seu documentário sobre o assunto. O que as igrejas evangélicas acrescentam aos excluídos? Cidadania. Há um diálogo muito interessante entre o marido e o outro, que fala como ele já foi louco, obcecado por uma mulher que era fogo na cama. A própria mulher, se era uma vadia, deve ter-se conscientizado do que colocava em risco, pois toma uma atitude. Acho que psicologizei demais vendo o filme, porque no final, que não vou dizer qual é, há uma mudanças de rumo, o que gostei, mas ela se transforma numa transferência de obsessão, e aí já não gostei tanto. Ou seja, mais um filme de gênero brasileiro que me deixou sem chão. O post está enorme, mas, em síntese, acho que os diretores brasileiros até emulam razoavelmente os códigos. O que eles tentam acrescentar, como ‘autores’, como reflexão sobre o mundo e a sociedade, é que não anda me convencendo.