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Mostra de SP (17)/A jovem rainha ‘virgem’

Luiz Carlos Merten

03 de novembro de 2015 | 09h53

Fui ontem cedo à redação, fiz as matérias que estão hoje no jornal e corri para o Espaço da Augusta para ver A Jovem Rainha. Havia folheado o catálogo e vi que a Mostra tinha dois filmes de Mika Kaurismaki, A Volta e A Jovem Rainha. O segundo era sobre Cristina da Suécia, biografada romanticamente em Hollywood num grande filme de Rouben Mamoulian com Greta Garbo, em 1933. A Rainha Cristina foi um filme que fez avançar a linguagem e, como tal, é emblemático em meu livro Cinema – Entre a Realidade e o Artifício. Fui ver A Jovem Rainha, achando que seria sopa no mel uma sessão às 2 da tarde. Cheguei lá e o tumulto estava formado. Filas a perder de vista. Muita gerente querendo comprar ingresso para ver não A Jovem Rainha, mas A Bruxa, The Witch, no final da tarde. Salvou-me o Adhemar Oliveira, que lá estava e me colocou para dentro. Quero dizer que sempre achei Mika, diretor de Moro no Brasil, o irmão menos talentoso de Aki Kaurismaki. Preciso reformular meu conceito, porque gostei demais de A Jovem Rainha e até digo que boa parte dos grandes filmes da Mostra (Os Campos Voltarão, O Botão de Pérola, As Mil e Uma Noites, O Filho de Saul etc), eu vi fora, em Berlim e Cannes, e os melhores filmes que vi aqui, com o público, foram o Ralé, de Helena Ignez, maravilhoso, e A Jovem Rainha. O filme é sobre como ela foi criada como homem, para suceder ao pai no trono da Suécia, e como se apaixonou por sua dama de companhia. Num país polarizado pela guerra entre católicos e protestantes que varria a Europa, a sede de saber de Cristina não apenas a afastou de seu povo como a levou a questionar os dogmas de Lutero, porque a questão é essa. Lutero insurgiu-se contra os dogmas de Roma para criar os dele. A entrada em cena de Descartes – Penso, logo existo – fornece ferramentas ao pensamento da rainha, mas logo ambos estão sendo vítimas de conspirações e Cristina, sentindo-se traída por todos a quem ama, da mãe à aia, e encontrando devoção apenas num pretendente que recusou, renuncia ao trono (em favor dele, numa manobra ousada) e vai para o Vaticano, onde se converte ao cristianismo e, sacramentada como Rainha Virgem, reina sobre a corte de artistas e sábios que o Papa reúne em torno dela, seu maior troféu na guerra contra Lutero. Gostei muito do quadro histórico, gostei das atrizes e da delicadeza e sensualidade como Mika Kaurismaki filma o amor e o desejo entre mulheres. A Jovem Rainha terá sessão ainda hoje. Não sei se fica na repescagem nem se terá lançamento, mas vale ver. E é curioso, nunca tinha pensado. Nesse grande choque religioso, cada lado teve a sua ‘Rainha Virgem’.