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Mostra de SP (15)/Um sábado para não esquecer

Luiz Carlos Merten

01 de novembro de 2015 | 17h18

Fui emendando uma coisa na outra e não consegui mais postar desde ontem. Nunca houve uma feijoada da Mostra como a de ontem, na Cinemateca, com direito a roda de samba e tudo. Entrevistei Miguel Gomes, o venezuelano Lorenzo Vigas e o islandês Grimur Hakonarson. O Inquieto, Volume 1 de As Mi e Uma Noites, do Miguel, estreia dia 12 e, depois, a cada duas semanas, estreiam os demais volumes, o 2, O Desolado, e o 3, O Encantado. Acho que vou guarda a entrevista para a estreia. Ficou bem boa. Além do próprio filme, que venceu Veneza – Desde Allà -, conversei com Lorenzo sobre o pai dele, Oswaldo Vigas, um dos maiores pintores da América Latina, que será tema de uma grande exposição em São Paulo, em março. Depende de acertos internacionais, mas Lorenzo gostaria de exibir na cidade o documentário que realiza sobre o pai. Chama-se O Vendedor de Orquídeas e se constrói em torno da busca que o próprio Oswaldo fez de um quadro que havia pintado aos 15 anos. Desde Allà é, ou também é, sobre pai e filho, e me encantou o carinho e a admiração como Lorenzo me falou do pai dele. Lorenzo vai ser pai. Seu primeiro filme. Ele emenda São Paulo com o Festival de Mar del Plata, mas não vai a Havana – o filme irá -, porque a previsão de nascimento é bem durante o evento de cinema na ilha. Imagino que será um festival histórico, no atual quadro de abertura em Cuba. Aproveito para fazer uma correção. Alfonso Cuarón, e não Alejandro González Iñárritu, presidia o júri de Cannes, que premiou Desde Allà. Havia feito no blog e no portal toda uma consideração sobre a ‘grandeza’ de Iñárritu, premiando Lorenzo, já que o roteirista Guillermo Arriaga, seu desafeto – romperam em clima de acusações -, não só colaborou na escrita como produziu Desde Allà. Lorenzo me tranquilizou. Disse que errei no nome, mas o raciocínio estava certo. Cuarón é do grupo de Iñárritu e ficou ao lado dele, contra Arriaga. Quando foi selecionado para Veneza e soube que Cuarón presidia o júri, Lorenzo Vigas pensou – ‘Lasquei-me!’ Mas Cuarón e seu júri o premiaram e o próprio presidente, num encontro posterior, lhe disse que não tinha nada a ver. Seria mesquinharia não premiar Desde Allà por causa desse tipo de picuinha. E Cuarón disse que o júri se havia dividido. Desde Allà foi a obra do consenso. Bonito. Volto à Mostra. Emendei feijoada – com samba e caipirosca – com a sessão de Ralé e tenho de dizer que, admirador de Helena Ignez como sou, nunca amei tanto um filme dela como esse. Zé Celso, ‘o’ Zé Celso, caga-se em cena. Ó escatologia. Os amigos, Ney Matogrosso e me escapa agora o nome do outro, o lavam com infinito carinho e cuidado. A fragilidade humana. A transgressão artística e sexual, todos aqueles gays se beijando, casando, criando. E não é só Helena. É a filha, Djin, cada vez melhor. Ainda não tinha deglutido o Ralé e já estava vendo O Bandido Giuliano, de Francesco Rosi. Devo ter visto o filme há uns 50 anos, ou mais. Nunca me esqueci daquelas mulheres sicilianas, todas de preto, feito abutres. A mãe e as carpideiras. E a mãe grita, estridente – “Turiddu, mio Turiddu’, como Salvatore, o bandido, era chamado. A autopsia do mito, a revisão da História (com maiúscula). Por que o grupo de Salvatore disparou contra os comunistas que celebravam o 1.º de Maio em Portella della Ginestra? Ecos do episódio estão em La Terra Trema, de Luchino Visconti, de 1948. Dois filmes na Mostra, Rocco e Salvatore Giuliano, me lembram que o cinema italiano era o melhor do mundo no começo dos anos 1960. Só no começo? A década prosseguiu gloriosa para os italianos, com grandes filmes de Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Pier Paolo Pasolini, Elio Petri e tantos outros, além dos citados Visconti e Rosi. A feijoada valeu. Os encontros com colegas e diretores foram ótimos, mas, no limite, não de Mario Peixoto, são os filmes que fazem a grandeza da Mostra no imaginário da gente.

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