As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mostra de SP (12)/O homo-erotismo em Limite

Luiz Carlos Merten

29 Outubro 2015 | 09h43

Fui rever Limite ontem. Encontrei Helena Ignez e Djin Sganzerla, que me falaram da repercussão de Ralé. O filme, que ainda não consegui ver, estreia em abril do ano que vem, porque antes irá a vários festivais. E Helena ganhou apoio da SP Cine para fazer o próximo filme, baseado num roteiro de Rogério Sganzerla. Chama-se A Garota do Calendário. São várias personagens femininas e Djin vai fazer a ‘feinha’ – impossível. Digamos que Djin não tem physique du rôle para ser a feia. Brinco, claro. Para atores e atrizes conscientes de seu ofício – e suas ferramentas -, nada é impossível. Limite. Sem limites? No caso específico da obra cultuada de Mario Peixoto, eu, às vezes, me sinto paranoico, no meio de uma conspiração urdida por intelectuais e burgueses que construíram o mito do grande artista brasileiro solitário. Vi, ‘aguentei’, as duas horas de Limite. As imagens (de Edgar Brazil), a trilha (Satie, Debussy) são belíssimas, mas prefiro o curta de Joel Pizzini, Mar de Fogo, que me fala mais sobre o autor e suas imagens que todas as demais exegeses. Tinha em casa, tenho, o livro de Saulo Pereira de Mello na extinta coleção Artemídia. Nunca havia lido. Peguei agora pela manhã e li alguns trechos. Ele diz que Limite tem um prólogo e um tema que fica claro nele. O homem e as duas mulheres no barco fornecem a chave para as três histórias que constituem o desenvolvimento. Tem também um clímax, um desenlace e um epílogo. Eu não consigo ver as coisas com tanta clareza e objetividade. Vejo só a (des)construção do tempo, que Mario usa de forma não cronológica. E vejo outra coisa. Mario (nos créditos o nome dele não tem acento) deve ter sido um sujeito extraordinário. Era mitômano. Quando ele fala de cenas filmadas e outras que faltam em seu filme, entusiasma-se com a própria imaginação. Ele, com certeza, anteviu o filme que queria fazer. Construiu esse filme imaginário na imaginação dos outros. O que existe é feito de fragmentos. A questão que me parece básica é – Mario era gay. Quando ele fala no filme de Joel, a boquinha de chupar ovo não nega. Não vejo nada demais nisso. Não estou destruindo a reputação do grande homem, espero. Limite tem aqueles quatro personagens definidos como Homem 1 e 2, Mulher 1 e 2. A parte mais clara de toda a equação é o homoerotismo dos dois caras no cemitério. Está no olhar de quem vê, e eu vejo. Tem aquela cartela com o intertítulo que informa que uma das mulheres é ‘morphetica’. Um dos homens se coloca em posição de inferioridade e olha súplice para o outro. Pede fogo. O homem de pé acende o cigarro e estende a mão para o outro, que não tem um cigarro para a troca, mas uma piteira. A mensagem é – enfia no buraquinho (o cigarro, claro). O olhar continua suplicante. O homem 2 reage à insinuação do 1. E a cena prossegue com uma longa deambulação até que, no cais, a mulher vem se oferecer para ele, comendo daquele jeito, e ele também recusa. Posso ser objeto de chacota por minha interpretação, mas é a que posso oferecer e a que me parece mais clara em todo o filme. Isso poderia atribuir outros significados à mulher com as algemas e ao mar de fogo. Mario era gay, mas por repressão ou quê não desenvolveu a própria sexualidade. Isolou-se. Era aquele homem que refreia o desejo, e isso me parece trágico, o mais trágico nessa história toda. E eu sinto muito, mas desisto. Já tentei várias vezes, mas não consigo ver em Limite a obra seminal/visceral cantada por seus admiradores. Diante de tão grande obra de arte, sinto-me simplório. E revoltado, pegando carona de que Mario dizia que Limite nasceu de sua revolta. Roberto Farias não consegue dinheiro para restaurar sua obra-prima, Selva Trágica, um grande filme viscontiano, um dos maiores da história do cinema brasileiro – eu acho, assim, como Rocco é um dos mauiores do cinema mundial. Dane-se quem pensa o contrrário. Saulo Pereira de Mello dedicou sua vida a salvar Limite. Agora que, como disse Walter Salles, o filme está salvo, quem sabe a gente inicia o movimento para salvar Selva Trágica?