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Mostra CineBH (4)/Maravilhas do cinema falado

Luiz Carlos Merten

18 Outubro 2015 | 17h31

Adorei o Matias Piñeiro que vi no sábado à noite, na Sala Humberto Mauro, do Palácio das Artes. Piñeiro é o autor argentino queridinho de publicações em língua inglesa como Film Comment. Já o vi ser chamado de ‘Godard argentino’, o que não me parece muito acurado, porque El Hombre Robado e Todos Mientem, mas principalmente o primeiro, me parecem os filmes mais ‘rohmerianos’ que Eric Rohmer não realizou. O Homem Roubado é sobre troca de casais e os personagens trabalham num museu de história do qual roubam diversos objetos. Todos Mentem vai na contramão. As intrigas amorosas importam menos que o contexto político, mas, no filme que se passa no século 19, a mentira política é uma tragédia – latino-americana e não apenas política, como se deduz do atual imbróglio que virou a situação brasileira.La Princesa de Francia, A Princesa de França, o novo Matias Piñeiro, que vi no CineBH, passa-se no meio do teatro e aborda uma ciranda de casais em que todo mundo mente para todo mundo. É um filme rohmeriano – minimalista, muito dialogado etc. Na verdade, eu o achei muito próximo do universo do coreano Hong Sang-soon, que também é, ele próprio, cria de Rohmer. Ainda deglutia as provocações e maravilhas das palavras de Princesa de França e já estava vendo La Academia de Musas, de José Luis Guerin, que perdi na programação do Festival do Rio. Gostei muito, mas ainda não estou totalmente seguro do que vi. O filme começa com uma aula do filólogo Raffaele Pinto, que fala de poesia, e de musas, para fazer uma provocação a suas alunas. Ele as exorta a serem as novas musas de que o mundo necessita. Elas se defendem – por que esse papel deve caber às mulheres, e qual o seu sentido num mundo pós-feminista e ainda machista? O filme é uma longa conversa sobre poesia, desejo, sedução. Em casa, a mulher de Raffaele Pinto começa a desconfiar de que ele esteja tendo um caso com uma das alunas. Ele se defende que lecionar é, por princípio, uma atividade que envolve sedução. A mulher encontra-se com a aluna que seria ‘a amante’. É coisa de Ligações Perigosas. A Academia de Musas é documentário, é ficção? É cinema de ‘bordas’? A aula, com as intervenções das alunas, é real? O nível – elevado – das discussões me lembrou o diálogo do pesquisador e da irmã em Wynter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan, ficção que valeu ao autor turco sua polêmica Palma de Ouro, no ano passado. E por que, em todas as cenas fora da sala de aula – na Universidade de Barcelona -, Guerin filma seus personagens através de vidros em que se refletem paisagens, pessoas, a dinâmica da cidade, o mundo, enfim? É uma tapeçaria tão rica que creio que tentar separar os fios somente levaria ao empobrecimento (estético e político). Guerin é sempre definido como cineasta e educador. Admirador de grandes clássicos de Hollywood – Howard Hawks e John Ford -, consta de sua biografia que filmou em Innisfree, na Irlanda, onde Ford ambientou Depois do Vendaval. Mas Innisfree não existe. É uma criação ficcional do Homero de Hollywood. Quem sabe seja essa a chave para se desvendar verdade e mentira no cinema do autor? Sua admiração por Robert Bresson, Raul Ruiz e Philippe Garrel levou-o a se aproximar desses autores, e até a formar laços duradouros de amizade. Uma das alunas de A Academia de Musas é uma das mulheres mais belas que já vi. “Minha função é provocar’, diz o professor. Raffaele Pinto é napolitano e, além de lecionar Filologia Italiana na Universitat de Barcelona, preside a Societat Catalana d’Estudis Dantescos. Lembram-se da cena na mesa do capitão de Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira, em que cada um(a) fala na sua língua e todo(a)s se entendem? Nas aulas de Raffaele, fala-se ora italiano, ora espanhol, e todo mundo também se entende. Fiquei chapado com o filme.