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Mostra CineBH (3)/Ainda o cinema de Lucrecia Martel

Luiz Carlos Merten

18 Outubro 2015 | 16h26

Já voltei para São Paulo, mas quero acrescentar mais dois ou três posts sobre o que vi em BH. Senti em Lucrecia Martel a mesma exasperação que percebi em Emmanuelle Bercot, quando participou da coletiva do Festival Varilux deste ano. Todo mundo queria saber dela como era ter sido a primeira mulher, em quase 30 anos, a abrir o Festival de Cannes, em maio, com De Cabeça Erguida. Ela subiu nas tamancas e pareceu antipática – ‘Escutem, mas quero quer que o filme abriu Cannes porque é bom, não porque sou mulher.’ Acho que ela fez história em Cannes, este ano, não propriamenter por isso, e na verdade por outra coisa que não se liga a gênero. Homem ou mulher, ninguém abriu o festival e depois ganhou o prêmio de interperetação (por Mon Roi), como ela. Isso, sim, foi notável. Lucrécia também foi cobrada a assumir uma posição, e quem a intimou lembrou o recente episódio no Recife em que Anna Muylaert foi abusada/hostilizada por dois colegas cineastas, Cláudio Assis e Lírio Ferreira. Nunca abordei o assunto, no blog nem no jornal, mas é que tenho dificuldade para lidar com ele. Anna, a quem admiro, me parece tudo menos frágil, e imagino que conseguiria enquadrar Claudião e Lírio. Mas, se não o fez, por que não? Pode ser que me chamem de machista por isso, que seja rotulado como incorreto. É um risco. Lucrecia disse o que qualquer pessoa sensata diria – que o machismo é torpe etc etc -, mas também acrescentou que meio que se exaspera porque ninguém pede a Francis Ford Coppola que faça a defesa do cinema dos varões nem a Pedro Almodóvar que volte a colocar meias arrastão em defesa dos cineastas gays (agora sou eu dizendo). Entendo a correção política, a necessidade de cobrança e tomada de posição quanto a certos temas, mas também entendo a irritação de autores, e autoras, face a algumas demandas. Mas o mais interessante de Lucrecia foi sua sessão de curtas. Passaram quatro, ontem à noite. Ela desculpou-se. Disse que receber a homenagem da Mostra CineBH estava sendo muito bom e, já que se tratava de uma retrospectiva, os curtas haviam feito parte do seu aprendizado, mas ela temia perder, com eles, o respeito que havia logrado, do público e da crítica, com os longas. Os curtas – Rey Muerto, Pescados etc – podem ser toscos, mas contêm os gérmens da pesquisa de Lucrecia sobre espaço e som e, nesse sentido, eu, pelo menos, gostei de vê-los. Mas, realmente, não são bons. Fritz Lang disse certa vez que filmes ruins são bons no sentido de ser úteis, porque mostrariam o que não se deve fazer no cinema. Lucrecia precisou dos curtas para pavimentar seu caminho nos longas. Os próprios longas são desiguais, e só o primeiro, La Ciénaga, O Pântano, me parece grande. Insatisfações pontuais à parte, é uma cineasta fascinante. Revelou-se uma mulher muito engraçada. Tudo o que disse somente aumentou minha expectativa pelo novo filme que monta, Zama.