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Mostra CineBH (2)/Cinema contra a barbárie

Luiz Carlos Merten

17 Outubro 2015 | 15h04

BH – Havia entrevistado Lucrécia Martel por e-mail, para umas matéria que terias ter publicado no Caderno 2, na quinta-feira. Mas na qui8nta ainda estava dando a final do Festival do Rio, era dia de estreia, e a entrevista, mesmo reduzida, só saiu hoje no jornal. Dividi-a em tópicos. Grande admirador de La Ciénaga/O Pântano e A Menina Santa, não gosto tanto de A Mulher sem Cabeça. Estou curiosíssimo pelo novo filme dela, Zama, co-produzido pelo Brasil (pela Bananeira Filmes de Vânia Cattani). Zama ainda está sendo montado e Lucrécia me diz, na entrevista, que ainda não sabe o que vai ser, mas está animada. No encontro que teve pela manhã como o público da Mostra CineBH, ela disse que o filme, uma adaptação, trará muitas novidades ao seu cinema. Os anteriores passam-se em Salta; esse será em Mendoza. Terá música e personagens predominantemente masculinos. Para uma diretora tão séria, Lucrécia é muito engraçada. Como toda a plateia, ri muito de suas observações irônicas, por vezes ferozes. Havia perguntado, na entrevista, sobre a construção dos personagens. Ela respondeu que são monstros que se disfarçam graças ao vestuário, mas que volta e meia permitem descobrir um tentáculo, que deixam escapar. Lucrécia dissertou bastante sobre seus monstros. Falou muito sobre as contradições salteñas. Embora a sociedade seja muito conservadora, é o lugar na Argentina que tem maior número de travestis, e isso diz alguma sobre os monstros locais e suas perversidade, seus desejos obscuros (ou proibidos). Ela também deplorou que tantos amigos ‘homossexuales’ tenham sido assassinados ou se suicidado. Há no cinema de Lucrécia uma violência latente e eu lhe perguntei sobre a violência no cinema. Tiros e facadas aborrecem-na, e na maioria das vezes a representação da violência nas camadas menos favorecidas obedece, segundo ela, a um imperativo político discricionário. Estigmatizam o pobre como marginal, perigoso, enquanto a verdadeira violência – as negociatas, o poder corruptor do dinheiro e das influências – ocorre nos salões da gente rica, perfumada, que avaliza o circuito das artes e não está nem aí para a dor e o sofrimento dos excluídos. Imagino que, para aquela revista e seus colunistas, Lucrécia, ao dizer isso, torne-se a mais nova ‘festiva’ do pedaço, mas eles terão de engoli-la porque não é peronista nem apoia Cristina Kirchner, e isso, por princípio, já a transforma numa pessoa ‘de bem’. Existem sempre piscinas nos filmes de Lucrécia Martel, em geral associadas a uma atmosfera de decadência, mas hoje, com absoluta clareza, ela deu outro sentido às suas ‘piletas’. Lucrécia mostrou um quadro de Van Gogh, que pensava, quando criança, ter sido pintado por sua avó. O quadro reproduz um céu revolto. Ela via o próprio are naquelas espirais. Sentia-se sufocada, como se estivesse dentro da água de uma píscina. A fluidez da água interessa-lhe porque, além do mais, permite propagar o som, sempre importante em seus filmes e ela disse que se coloca, com seus personagens, dentro d’água, olhando para cima, e a superfície da água vira, metaforicamente, a tela do cinema. Foi uma bela lição de cinema, melhor que a de Hal Hartley no Rio, e Pedro Butcher foi o mediador de ambas (em BH, a mediação foi feita em parceria com Francis Vogner dos Reis, que assina com ele a curadoria da seleção Criação e Resistência – Cinema contra a Barbárie). Vejo hoje alguns filmes, incluindo um programa de curtas de Lucrécia, e amanhã já volto pela manhã para São Paulo. Atrativos não faltariam, para ficar. Gostaria muito de ver o novo Paul Vecchiali, Faux Raccords. Conversei com Fernanda e Raquel Hallak e com Quintino Vargas, diretores da Universo Propdução. Como no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo, a restrição orçamentária bateu pesada na Mostra CineBH, e talvez até mais. Manter esses eventos funcionando é a própria manifestação da criação e da resistência. O cinema contra a barbárie, mesmo.