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Mostra CineBH (1)/O Japão de Miike ou o Brasil de Dilma?

Luiz Carlos Merten

17 Outubro 2015 | 14h22

BELO HORIZONTE – Cá estou, desde ontem à tarde. Vim para dois dias de programação na Mostra CineBH, que fecha o ano do propjeto Cinermsa sem Fronteiras, da Universo Produção. Começou com A Mostra de Tiradentes e o novíssimo cinema brasileiro, prosseguiu com a Mostra de Ouro Preto, o cinema de arquivo e da memória, e se encerra com a Mostra CineBH, que aponta para novas tendências do cinema mundial, mas principalmente propõe pasrcerias para incvlu8são no mercado internacional de autores nacionais. A Mostra deste ano homenageia Lucrecia Martel e exibe versões restauradas de quatro clássicos – French Can-Can, O Desprezo, Les Yeux sans Visage/Olhos sem Rosto e Zero em Comportamento. Na semana que vem, no mesmo dia da Mostra, começa uma retrospectiva completa de Jean-Luc Godard em São Paulo. Todo Godard, cento e tantos filmes. Luiz Zanin Oricchio vai fazer a matérias no Caderno 2 de segunda-feira, mas Eliana Souza, nossa pauteira, me pediu para o portal uma lista com meus dez filmes preferidos do diretor. Às vezes me pergunto se, mesmo reconhecendo a importância de Godard, eu gosto dele, e o entendo, porque o ‘meu’ filme dele é O Desprezo, que, além de ser o mais ‘clássico’. é uma adaptação (de Alberto Moravia). Mas, realmente, o travelling inicial e a persona de Fritz Lang como o diretor que faz sua Ilíada com estátuas me deixam louco. E o filme é sobre o homem moderno, Michel Piccoli, que não é mais Ulisses e, como consequência, não ser pode exigir da mulher, Brigitte Bardot, que seja uma Penélope. Meu 2 é Viver a Vida, o 3, Uma Mulher É Uma Mulher, o 4, A Chinesa, o 5, Week-End à Francesa, o 6, o episódio A Preguiça de Os Sete Pecados Capitais, o 7, Adeus à Linguagem, o 8, Acossado/A Bout de Souffle, o 9… Vou ter de pensar para fechar minha lista, mas a mim mesmo surpreeende que filmes de Godard que os outros amam me aborreçam tanto. É o caso de Pierrot le Fou/O Demônio das Onze Horas, que me cansa como filme de gênero, o gênero Godard. Tergiversei um pouco. Estou indo a um encontro de Lucrecia Martel com o público. E quero dizer que revi ontem Escudo de Palha/Shield of Straw, de Takashi Miike, que havia visto em Cannes, há dois anos. Gosto de Miike, principalmente dos seus excessos. Ele próprio é excessivo. A última vez que o entrevistei, por esse filme, ele estava com os cabelos pintados de cenoura e cercado por um entourage de jovens. O filme é sobre grupo de policiais destacado para proteger criminoso confesso, que matou, de formas brutal, a neta de um bilionário e agora o cara oferece 1 bilhão a quem matá-lo. O país enlouquece, todo mundo querendo participar do linchamento e a própria polícia começa a vazar. Mas os cinco durões da polícia permanecem, e vão morrendo – há um traidor entre eles. O escudo protetor de palha. Há dois anos, havia gostado do filme. Ontem, tive um choque. Escudo de Palha ganhou outro sentido para mim e o Japão de Miike poderia muito bem ser o Brasil de Dilma. A incitação ao linchamento moral é flagrante, e no processo todo mundo se degrada. Vi a desintegração de um país. Só o herói resistiu. E aqui…? Estou em choque.