As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mostra (9)/Tempo que resta

Luiz Carlos Merten

26 de outubro de 2019 | 08h33

Escolho o título de um filme de Elia Suleiman. Talvez pareça enigmático. Minha sexta – ontem – teve cabine da Mostra, o representante da Argentina na briga pela indicação para o Oscar, A Odisseia dos Tontos, com Ricardo e o filho, Chino Darín, seguida de entrevista (com Elia Suleiman), médico e o monte de matérias que fiz para as edições de sábado e domingo do C2. Juntei Amos Gitai e Suleiman num texto, e o palestino contradisse o israelense. Suleiman não vê mais possibilidade de diálogo e admite que está dando as costas a Israel – é, aliás, o tema de seu filme O Paraíso Deve Ser Aqui. A política de repressão de israel nos territórios ocupados, a right wing de Benjamin Netanyhau o empurrou para o radicalismo. Outro texto é sobre Parasita e Crônica de Um Industrial – na homenagem que a Mostra faz ao imenso Luiz Rosemberg Filho – e conexões com filmes em cartaz, como Coringa e Bacurau. Como jornalista de cinema, atuo no deadline, de olho no fechamento, formulando raciocínios ‘on the run’, na base da urgência. Não recomendo, mas gosto disso e ontem ainda havia um adicional, o plus a mais. Tinha de sair cedo porque houve à noite, às 8, no Instituto Tomie Ohtake, uma homenagem, um memorial para Camila Molina, que morreu na semana passada, aos 38 anos. Querida Camila, Camilinha. Fomos muitos, nós, seus amigos e me emocionei muito, no fim, quando querendo confortar a mãe de Camila, ouvi dela que a filha tinha muito afeto por mim. Fomos jantar, um grupinho – Regina Cavalcanti, a filha e a neta, Carolina e Laura, João Luiz Sampaio e eu, no Consulado Baiano, na Rua dos Pinheiros, um restaurante que já frequentei muito e hoje não vou tanto – tudo é fase na vida. Comemos moqueca, eu tomei vinho e a Camila seguiu viva ali, nas conversas entre a gente, nos brindes que fizemos. Precisávamos, eu precisava, daquele memorial. Não a tendo acompanhado em sua jornada final, era importante um momento de união para fazer o luto, expressar nossa dor e abraçar a vida, que segue. Não contei, mas, no sábado passado, há uma semana, quando soube da morte de Camila, acho que me abati porque terminei fazendo outros lutos. Curioso, escrevo isso e me lembro de Alain Resnais – Marguerite Duras. Emmanuelle Riva diante do espelho, no final de Hiroshima, Meu Amor, um dos filmes da minha vida. ‘Petite coureuse de Nevers…’ Mas, na verdade, o que me acalmou e permitiu chorar serenamente foi um dos meus livros de cabeceira. Platero e Eu, de Juan Jamón Jiménez, a edição bilíngue da Marcols Fontes. Os capítulos finais. La Muerte, Nostalgia, El Borriquete, Melancolía e A Platero en el Cielo de Moguer, que são algumas das páginas mais belas já escritas. O autor reflete sobre a morte do burro – Balthazar, a grande testemunha de Robert Bresson. Dulce Platero trotón, burrillo mio, que llevaste mi alma tantas veces por aquellos hondos caminos… Imagino a Camila no céu de Guaxupé. E Platero de Cartón, o fecho, quando Jiménez conta que guarda em sua mesa de trabalho um Platero de papelão, presente de uma amiga, que agora, com o tempo, lhe parece mais Platero que o original. Talvez exista outro livro tão belo sobre perda. Mais – não sei. Voltei a Platero, a Moguer. A emoção me consome.