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Mostra (8)/O meu guri, ou como Josafá Veloso foi o Coutinho de Coutinho

Luiz Carlos Merten

24 de outubro de 2019 | 18h28

Anos atrás, ministrei um curso de cinema. Ia lá e conversava com meus ‘alunos’. Falava sobre os clássicos fundadores da linguagem, mas meu prazer era pedir que escolhessem entre os filmes da semana o que iríamos debater. Posso muito bem falar de Eisenstein, Welles, Hitchcock, mas hoje estaria discutindo com eles Todd Phillips/Coringa, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles/Bacurau. Josafá Veloso frequentou o curso. É o diretor de Banquete Coutinho, que já cumpriu sua programação na Mostra. Espero que volte na repescagem. Tanta gente reverenciava Coutinho. Josafá foi lá e, na lata, disse que queria discutir algumas teses com ele. Pra quem é, pra onde é, perguntou Coutinho? Para mim, disse Josafá – está no filme dele. Diante do ‘garoto’, o mestre desarmou-se. Foi pungente, encarando a m… da própria vida. Se é verdade que Coutinho celebrou a arte do encontro e foi um grande entrevistador, ouso dizer que Josafá, o meu menino, foi o Coutinho do Coutinho. Às vezes perco minha paciência, com o culto a Coutinho. Não sou louco de negar sua importância. Coutinho fez grandes filmes, era maravilhoso – ele, mais que qualquer filme que tenha feito. Se é verdade, como diz Josafá, que ele fazia sempre os mesmos filmes, mas diferentes, para mim os mesmos filmes diferentes chegaram a um apogeu (Edifício Master), talvez outro (Jogo de Cena) e depois foram ficando menos bons. Coutinho sabia disso, tinha autocrítica suficiente. Isolava-se, ou pelo menos se retraía. Tantas vezes ele se reinventou, mas minha tese – todo mundo tem uma – é que Coutinho talvez duvidasse de sua possibilidade de se reinventar, mais uma vez. Entrevistei-o muitas vezes para o jornal e popdia perceber sua fadiga, o enfado. Lápelas tantas, falávamos mais sobre a vida que os filmes. Viver em casa, com aquele filho, tinha um componente de roleta russa. Sei que o que estou escrevendo parece terrível. Mas a honestidade intelectual de Coutinho no belo filme de Josafá Veloso me levou a isso. Guri, tu é f…