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Mostra (7)/O mundo já está em chamas

Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2018 | 08h46

O que se passa na cabeça das pessoas? Os jovens acuados de Utoya não entendem por que está ocorrendo o tiroteio no acampamento de verão. Lançam perguntas – quem, como, por que? E sentem medo. Na hora do perigo todos chamam por mãe, pai. (Em Temporada, de André Novais, Grace Passô conta à prima como é doloroso perder a mãe. Pior que perder o pai, acrescenta a prima.) Uma das garotas, a que diz que quer ser política no filme dinamarquês, se arrisca para encontrar a irmã. Se o filme tem uma protagonista, é ela. O garoto com ela se pergunta o que faz nesse inferno. Só veio porque queria pegar umas meninas e agora está ali, caçado feito bicho nessa verdadeira temporada de caça. O diretor Erick Poppe não explica nada. Filma a irracionalidade e, do jeito que filma, cria o mal-estar, a sensação de confinamento, claustrofobia. No final, o letreiro enumera as vítimas e identifica o assassino. Diz que há um (res)surgimento da ultradireita em todo o mundo e informa que o assassino, em seu depoimento, disse que o ataque foi sua forma de protestar contra as políticas trabalhistas do governo. Faria tudo de novo. Um pouco dessa irracionalidade está no Lars Von Trier. Jack mata. Constrói sua casa macabra. Lars psicologiza, remetendo a episódios da infância de Jack. Numa cena, a mulher, sua vítima, grita por socorro à cidade, que responde com indiferença ao seu desespero. A polícia não serve para nada, é fácil de ser enganada – há uma cena similar, que leva a uma explosão de Marina Ruy Barbosa em Sequestro Relâmpago, de Tata Amaral. O que você irá fazer quando o mundo estiver em chamas? No longa de Roberto Minervini, uma comunidade negra no sul dos EUA lida com a herança racista e seu recrudescimento. O mundo não vai ficar – já está em chamas. As coisas sempre podem piorar, é verdade. Vários filmes da Mostra estão dando conta disso.