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Mostra (7)/Mais uma mulher em chamas. E os diálogos do Oriente Médio

Luiz Carlos Merten

24 de outubro de 2019 | 18h03

Assisti hoje pela manhã à cabine de Papicha, que ainda terá sessões na Mostra nos dia 26 e 29. Dia 30, o Estado promove o debate com o público no Petra Belas Artes. Gostei demais do filme da argelina Mounia Meddour, que transforma um desfile de modas numa escola no retrato de outra mulher em chamas, num mundo convulsionado. A Argélia em pleno processo de islamização radical. A garota que ama seu país e os bárbaros que querem instituir a ditadura religiosa. Lugar de mulher é em casa, perto de Alá. O namorado que só pensa em sair daquele inferno, ir para o mundo. Ela fica. Resistir é preciso. É Argel em 1990 ou o Brasil em 2019? O filme mexeu muito comigo. Saí do Petra e fui ao Renaissance, onde Amos Gitai me esperava. Houve ontem a leitura do livro coim as cartas da mãe delas. E daqui a pouco uma sessão dupla, de dois de seus longas restaurados. Berlim, Jerusalém e Kadosh – Laços de Sangue. Entre um e outro haverá debate. A mulher no universo tradicionalista, machista. O dogma que oprime, mata. Não será sempre assim? Dogma libertador seria uma contradição em termos. Preso ao peso do dogma, quem consegue voar? Amos falava de Israel sob Benjamin Netanyhau e parecia o Brasil de Jair Bolsonaro. Vulgaridade, o orgulho de ser ignorante, o ódio à cultura. Também ontem assisti ao Elia Suleiman, numa cabine da Mostra. O Paraíso Deve Ser Aqui. Uma espécie de autorretrato. E.S. em Nazaré, Paris e Nova York. Um cineasta palestino que quer fazer um filme sobre a Palestina. O produtor que recusa o projeto porque não é suficientemente ‘palestino’, nem comercial. E.S. quase não fala – herdeiro de Buster Keaton. Passeia sua máscara impassível pelo mundo, para confrontar o absurdo – Jacques Tati. A narrativa episódica desafia cânones, é um modelo de invenção – Otar Iosseliani. Les incassables, como dizem os franceses. Pode não ser o melhor Suleiman, mas é ótimo. Amos Gitai chama-o de amigo. O diálogo entre os dois é a prova de que uma solução negociada seria possível no Oriente Médio – se não fossem os dogmáticos, os radicais. Amos recebe este ano o Prêmio Leon Cakoff; Suleiman, o Prêmio Humanidade. Face ao estado do mundo, Amos é otimista ou pessimista? Seria (pensar nesses termos) um luxo. Ele acredita na resistência. Entrevisto Suleiman amanhã. A mostra o homenageia também programando Intervenção Divina. É maravilhoso (o filme).