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Mostra (6)/Mulheres em chamas

Luiz Carlos Merten

23 de outubro de 2019 | 08h54

Assisti ontem aos meus dois melhores filmes desta Mostra, pelo menos até agora. No início da tarde, o mexicano O Diabo entre as Pernas, de Arturo Ripstein, e à noite a Jeanne de Bruno Dumont, com a mesma atriz de Jeanette, Lise Leplat-Prudhomme. Não sei até que ponto meu gosto é compartilhado pelo público, porque muita gente saiu durante o Ripstein e mais ainda durante o Dummont. Embora seja o maior cineasta mexicano vivo, Ripstein não se pauta pela Academia de Hollywood, como seus colegas premiados Alejandro González-Iñárritu, Alfonso Cuarón e Guillermo Del Toro. Faz cinema de gênero, mas subverte cânones, porque seu melodrama é hiper (realista? Naturalista?), com cenas de sexo (na terceira idade) que parecem a um passo de ser explícitas. O filme em preto e branco é sobre um casal de velhos que vive o inferno do desamor e do desejo. Tem uma doméstica – Ripstein, de alguma forma, fez o seu Roma para quebrar, ou só eu vi as similaridades com o Cuarón? Aliás, mesmo gostando muito do filme do Kleber Mendonça Filho não resisto a postar o que me disse uma amiga que não via há tempos e reencontrei na Mostra – Coringa é o Bacurau que deu certo. Não é o máximo? Se em O Diabo entre as Pernas Ripstein filma a exacerbação do desejo – o império da paixão? -, Bruno Dumont, em Jeanne, segue uma via oposta, a da sublimação, mas ambos os autores terminam com suas mulheres, a velha e a pucelle, em chamas. Dumont abandona o formato musical de Jeanette, mas não se furta a integrar ao relato quatro canções de Christophe, incluindo uma performada pelo próprio compositor, como grande inquisidor. Jeanne – as batalhas, que não aparecem, exceto uma parada militar, filmada do alto, em plongê, como o faria o próprio Busby Berkeley. O que representa Joasna D’Arc para o espectador de 2019? As vozes (de Deus?) que ela ouve a levam à derrota no campo de batalha, mas Jeanne logra libertar Paris, e a França, dos ocupantes ingleses. É julgada como herética, mas não renuncia. Mantém a atitude – menina santa, levada.Gostei demais.