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Mostra (4)/Ripstein!

Luiz Carlos Merten

21 de outubro de 2019 | 09h31

Foi um domingo agitado, com físio e redação pela manhã, aniversário à tarde – do Francisco, o adorável filho dos meus colegas João Luiz Sampaio e Maria Fernanda Rodrigues – e à noite o documentário de Bárbara Paz sobre Hector Babenco, Alguém tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, que encerrou a programação da Mostra no Teatro Municipal. Não é o conceito de doc que mais me atrai e ainda por cima existem certas conversas reservadas que tive com o Hector e nunca foram para o papel. Melhor deixar o filme lá, e eu cá. Mas respeito, e gostei do preto e branco. Hector construiu toda a obra dele em cores – não me lembro de nada em PB, mesmo que a paleta de alguns filmes, Ironweed, por exemplo, seja bastante limitada. O PB deu outra dimensão ao realismo dele, mas, paradoxalmente, o para mim mais belo plano do cinema de Hector – um plano nascido muito do acaso proporcionado pelos deuses do cinema, o cachorro avançando pelo corredor crivado de corpos na chacina do Carandiru -, esse me pareceu ter perdido um pouco a força. Vou ter de rever o filme da Bárbara por aquele plano, exclusivamente. Por mais elaborado que seja – ela é, indiscutivelmente, inteligente -, mantive-me distante. Não me passou muita emoção, por que será? Sei, mas não vou escrever. Jantamos, um grupo animado, incluindo Emília Silveira, Norma Curi e Jom Tob Azulay, no Mestiço. Muitas conversas sobre os filmes brasileiros na Mostra. Não apenas. Nesta segunda ocorre a primeira exibição de um filme que ainda não vi, mas do qual estou (muito!) pré-disposto a gostar. O Diabo entre as Pernas me devolve o cinema de Arturo Ripstein, que sempre achei o grande nome do cinema mexicano contemporâneo, apesar dos Oscars para Alejandro González-Iñárritu, Guillermo Del Toro e Alfonso Cuarón, o melhor dos três, com seu Roma. Um Ripstein, com roteiro de Paz Alicia Garciadiego, é tudo que quero ver. Um velho e a mulher, uma relação baseada no ódio – e no desejo, porque o sexo, o tal diabo, ainda é forte. Para minha tristeza, acho que vou ter de recuperar o Ripstein outro dia, porque passa hoje no mesmo horário de Depois a Louca Sou Eu, de Júlia Rezende, e os brasileiros têm sido minha prioridade na Mostra. Emilia e Norma, que foram colegas na redação do JB – e por isso ganharam do Jom Tob a definição de meninas do B (havia outras) -, querem ver holje à tarde Isso Muda Tudo, do Tom Donahue, como parte da agenda feminista das duas. Eu vou tentar ver O Fantasma de Peter Sellers, de Peter Medak, diretor inglês de ascendências húngara que fez A Classe Dominante, com Peter O’Toole como lorde que se toma por Jesus Cristo, e que exorciza a experiência com o astro de Dr. Fantástico e da série com o Inspetor Clouseau. Peter Sellers infernizou a vida de Medak durante a filmagem de Ghost in the Noonday Sun, de 1974. Virou um daqueles filmes malditos – como o Dom Quixote de Terry Gilliam e O Judeu, do Jom Tob, como lembramos ontem, e a conversa entrou pela madrugada.