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Mostra (4)/Cenas (inéditas) de um casamento, por Reygadas. O melhor!

Luiz Carlos Merten

21 Outubro 2018 | 10h37

Gostaria de ter gostado mais de Deslembro, o novo filme de Flávia Castro, que dedicou a sessão de ontem à noite, no Reserva, ao jornalista Luiz Eduardo Merlino, que, em 1971, foi preso e massacrado pelo torturador Brilhante Urso, ídolo do coiso, morrendo de gangrena. Mas eu admito que entrei pela porta errada no filme. Achei, não sei por quê, que era documentário. É ficção. Uma garota, filha de exilados – o pai morreu nos porões da ditadura -, quer permanecer na França, não quer voltar ao Brasil. Flávia contou, na apresentação, que começou a gestar seu filme em 2009. Nunca imaginou que iria lançá-lo no atual quadro do País (e do mundo). Quem poderia? Assisti pela manhã a Burning/Em Chamas, do sul-coreano Lee Chang-dong, que venceu o prêmio da crítica em Cannes. De novo a literatura, como em Poetry, do diretor, os limites entre a realidade e a ficção. É bom, claro, ma non troppo. À tarde, fiquei em choque ao assistir ao melhor filme, até aqui, dessa Mostra. Nuestro Tiempo, Nosso Tempo. O mexicano Carlos Reygadas e a crise de um casamento. O casal tem uma fazenda de criação de touros. Ele também é poeta. Aceita, aparentemente, que a mulher tenha sexo fora do casamento. Mas, quando parece que ela está se envolvendo com o amante, ele surta. Destabiliza-se, o casamento implode. Você já viu muitas cenas de um casamento, mas não como as desse filme. Reygadas está sempre, em todos os seus filmes, questionando sentimentos como a narrativa tradicional. Propondo (novas) formas. O cinema que ainda surpreende. Nuestro Tiempo começa com o selo de Veneza. Estava no festival, como o Alfonso Cuarón, Roma, que venceu o Leão de Ouro. Roma é melhor? Ainda não vi, não sei. Gosto muito de Cuarón, mas a questão, no limite, é que ele talvez seja mais ‘palatável’. Estou chutando. Algumas pessoas saíram durante a exibição de Nuestro Tiempo. Chamou-me a atenção um casal (hetero) porque, antes de o filme começar, duas mulheres estavam falando alto, na fila de trás – trocavam de lugar -, e ele, irritado, fez um comentário preconceituoso, tipo ‘Vão pro tanque’. Eleitor do coiso? Até na Mostra os ânimos estão exaltados. Ouço que a organização do evento tem recebido telefonemas ameaçadores. ‘Aí tem muito gay, comunista. Vai acabar!’ Cinéfilos, atenção!