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Mostra (3)/Paul Vecchiali, o franco atirador

Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2017 | 00h28

Volto à Mostra. Tenho feito a cobertura diária do evento no Caderno 2. Não é que não sobre tempo para o blog, o problema é ficar me repetindo. Entrevistei ontem, segunda, Paul Vecchiali, que veio a São Paulo para receber o Troféu Leon Cakoff. Comecei falando sobre sua Encinéclopedie, os dois volumes críticos resgatando os diretores franceses dos anos 1930 que François Truffaut, nos 50, tentou enxotar da história. Na verdade, ao recuperar o cinema da ancienne vague queria conversar com Vecchiali sobre a centenária Danielle Darrieux, que morreu na semana passada e a quem ele dirigiu três vezes. Descobrimos nossas afinidades – Madame De, de Max Ophuls; O Intendente Sansho, de Kenji Mizoguchi, que é o filme da vida dele; e os italianos. Vecchiali reverencia, como eu, Luchino Visconti, mas prefere Senso/Sedução da Carne a Rocco. Achei engraçadíssimo ouvi-lo sobre como deu uma master class para críticos italianos, só para abrir os olhos deles para as reais intenções de Visconti. Senso é contado por uma mulher, a condessa Serpieri, que enlouquece (de amor) no final. O filme é sobre uma louca, como Morte em Veneza é sobre a degradação de Dirk Bogarde/Aschenbach. Estamos de acordo quanto a Sandra, ou Vagas Estrelas da Ursa, mas Vecchiali gosta mesmo é de Valerio Zurlini. Verão Violento, Dois Destinos/Cronaca Familiare. E, claro, La Prima Notte di Quiete. Dada a dificuldade para definir um estilo de Vecchiali, os críticos tergiversam. Dizem que é um free style, ou um anti-estilo formal. Ele prefere dizer que é um franc tireur, um franco-atirador. Essas conversas me estimulam, confesso. Espero ter outras nessa Mostra. Falei aqui no outro dia que já tenho meus favoritos – Arábia, Visages Villages. E O Jovem Karl Marx. Os reacionários do Brasil, e eles são legiões, nem vão quer saber de Marx, Engels e da criação do Manifesto Comunista. Eu acho o desfecho de uma beleza acachapante. O Che ao som de Bob Dylan. A luta continua? Vou (re)ver pela manhã The Square, para tirar a teima. Não gostei do filme do sueco Ruben Ostlund, ou pelo menos não era meu candidato para a Palma de Ouro. Tem muita coisa que ainda quero ver, mas minhas prioridades são o Kore-eda, O Terceiro Assassinato, e os irmãos Taviani, Uma Questão Pessoal. E existem alguns filmes sobre cinema que estão me tentando. A Hollywood de Hitler e Cinecittà Babilônia.