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Mostra (23)/Cuarón, para encerrar com brilho

Luiz Carlos Merten

01 Novembro 2018 | 08h04

Fui ontem à cerimônia de premiação da Mostra. Já havia recebido antecipadamente o resultado, que está na edição de hoje do C2. O documentário Las Sandinistas!, de Jenny Murray, foi o grande vencedor do Troféu Bandeira Paulista, outorgado pelo júri internacional. A seção competitiva da Mostra destina-se a novos diretores, até o segundo filme, e foi concebida por Leon Cakoff num momento de repressão, no País. O júri faz suas escolhas a partir dos mais votados pelo público, e essa era uma forma de protesto, porque não se votava livremente no Brasil. O resultado está no jornal, mas não o clima de cerimônia. Os discursos da mulher e da filha de Jafar Panahi, que recebeu o Prêmio Leon Cakoff, mas não veio recebê-lo porque está confinado no Irã. O prêmio do público de melhor documentário para Torre das Donzelas, sobre a ex-presidente Dilma e suas companheiras no período em que estiveram presas, e foram torturadas, durante a ditadura militar. A Mostra teve muitos momentos emocionantes, mas creio que nenhum foi mais belo que a sessão dos 20 anos de Central do Brasil, à qual cheguei, depois de muito esforço, atravessando a manifestação – um sopro de #EleNão, mas ele já foi eleito -, que travava a Consolação e as ruas que davam acesso ao Itaú Augusta. Resistir é preciso. E fiquei para ver o Alfonso Cuarón, Roma, que venceu o Leão de Ouro em Veneza. O filme é da Netflix e estreia em dezembro na TV paga, mas a Netflix Brasil tenta conseguir autorização da matriz para lançá-lo nas salas. O filme é extraordinariamente bem feito e ficou comigo. Não paro de pensar na sociedade de classes do México por volta de 1970, na personagem, de Cléo e na atriz que a interpreta, alguma coisa Aparicio. A vida de uma família burguesa vistas pelos olhos da doméstica. Mas na hora fiquei gelado, porque o filme me produziu uma admiração fria e aí me lembrei de haver lido algo quando Roma venceu o Leone – que faltava ao filme o batismo da sarjeta, que se fosse, talvez, um pouco mais vulgar, menos artístico e perfeito, permitiria que a emoção fluísse mais naturalmente. Senti-me meio sem ‘gravidade’, me entendien? Curiosa reação, mas foi um pouco o que senti. Roma é belíssimo, uma experiência e tanto. Paradoxal – Cuarón usa tecnologia de 65mm para um filme que parece tão ‘íntimo’. Nisso lembra o Carlos Reygadas, Nuestro Tiempo, que também fusiona o macro e o micro. As cenas da matança de estudantes e do quase afogamento no mar possuem uma grandiosidade impactante. Exigem a sala dos cinemas, não parecem feitas para passar na TV – mas foram. As cenas do carro, do Galaxy que entra cuspido na garagem, conduzido pelo patrão, e aos trancos e barrancos pela patroa. Que coisa. Tão simples, mas só na aparência. Cá estou, ainda em casa, depois de já haver feito a mala. Daqui a pouco embarco para o Rio. Mais filmes, entrevistas. Mais um festival!