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Mostra (2)/’No pasarán’. E o sábado cheio de atrações brasileiras

Luiz Carlos Merten

19 de outubro de 2019 | 09h16

Roberto Alvim, a quem admirava tanto como diretor e dramaturgo, conseguiu o que não queria. Despertou uma onda de amor por Fernanda Montenegro que transformou essa mulher num símbolo. Ícone de resistência. Durante a ditadura, houve Cacilda. Hoje há Fernanda. O prefeito Bruno Covas subiu ao palco do Teatro Municipal ontem à noite com o secretário municipal de Cultura, Alê Youssef, e a presidente da Spcine, Laís Bodanzky, para entregar o teatro à Mostra. Houve um princípio de vaia, mas Covas virou o jogo com o anúncio de seu secretário de que São Paulo vai sediar em janeiro o festival Teatro sem Censura, para abrigar/sediar as obras perseguidas/renegadas pelo Governo Federal. Houve críticas ao Coiso, sem que fosse citado nominalmente. O Governo Federal, essa entidade agora diabólica que paira sobre nós, que amamos a arte e a cultura. Nenhum sistema vai nos vencer, foi mais ou menos o que disse Fernanda naquele domingo, no Municipal, ao ler trechos de sua autobiografia e conversar com minha ex-editora, Marta Góes. Não vou reler o post, mas tenho certeza de que a comparei à Passionária, da Guerra Civil espanhola, e até fiz uma referência à obra de Erico Verissimo, O Tempo e o Vento, quando o personagem que foi lutar na guerra, ao lado dos republicanos, descreve sua emoção ao ver a Passionária falar para as massas e o cínico da história, Tio Bicho, diz que ele teve ali sua visão de Nossa Senhora. Fernanda, aliás, foi a Compadecida. Os ataques – as ofensas – de Roberto Alvim tiraram a velhinha (com todo respeito) do seu sossego de grande dama nonagenária e a trouxeram para a boca de cena da resistência cultural. No pasarán. A pauta desse País anda tão negativa, como me disse o José Luiz Villamarim na entrevista que fiz com ele, na quinta, no Rio, que eu começava a duvidar que, aos 74 anos, ainda houvesse luz para mim, no fim do túnel. Pois olhem – estou a acreditar que sim. O sol/há de brilhar mais uma vez. Nelson Sargento, imortal. Adorei rever A Vida Invisível. Ao entrevistar, de novo, Karim Aïnouz, brinquei com ele. A vida é tão invisível que até o nome da personagem (Eurídice Gusmão) sumiu do título. Por que você toca (piano), pergunta o marido, que sente que nunca vai ser dono da mulher? E ela responde – ‘Porque, quando toco, fico invisível.’ O filme, crítico da família tradicional, tem um upgrade quando Guida cria a família do afeto (com Filomena) e dispara quando Fernanda entra em cena, nos dilacerantes dez ou 15 minutos finais. Fernandona no Oscar. A Mostra terá neste sábado uma importante seleção brasileira. Eryk Rocha, às 2 da tarde, Breve Miragem do Sol. José Eduardo Belmonte, às 4 e 20, Carcereiros – O Filme. Sandra Kogut, às 9 da noite no Municipal, Três Verões. E no início da tarde, Josafá Veloso, que foi meu aluno, no único curso de cinema que dei, estreando com Banquete Coutinho. Não sou professor, por natureza. Sou um eterno aprendiz (da vida e do cinema). Não curto dar aulas, mas amo o diálogo. Ver um filme e, no calor da hora, discuti-lo com quem quer que seja – o público, o autor. Não creio que vá ver o filme do Josafá hoje, mas ainda tem mais sessão, ou sessões. Verei.