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Mostra (14)/Murilo Benício e seu ‘Beijo’ escancaram o horror do Brasil

Luiz Carlos Merten

10 de novembro de 2017 | 09h47

Há dias tento postar, mas não consigo. Tem sempre muita matéria, entrevistas, filmes para ver. Estou agora na Redação do Estado. Fiquei muito deprimido nesta manhã. A caminho do café, na padaria, passei pela banca de jornais e vi a chamada na capa do Agora. Feirante, um jovem de 234 anos, foi morto a socos ao defender a irmã trans. Não encontrei a notícia em nenhum outro jornal, pelo menos na capa. O que vi é que Aécio demitiu Tasso Jereissati, ampliando racha do PSDB, e que Temer fechou com Sarney e Jucá o novo nome para a Polícia Federal. O ministro da Justiça não participou da escolha e o PMDB conspirou nos bastidores para ter gente do partido no cargo. Todas essas coisas parecem desconexas, mas não são. Deprimi, até chorei, mesmo não conhecendo as pessoas envolvidas nessa tragédia familiar. Os mocinhos, pelo visto, só vencem na ficção de Hollywood. Tergiverso, mas toda essa digressão tem a ver com o título do post. Mais um sobre a Mostra. Fui ver, no último dia da respecagem, o filme que Murilo Benício adaptou da peça de Nelson Rodrigues, O Beijo no Asfalto. Em sucessivas entrevistas, já havia falado com Murilo sobre o ‘seu’ Beijo, que agora também é meu. Quem me acompanha sabe que amo Tio Vânia em Nova York. Louis Malle reinventou o teatro no cinema com aquele filme. Murilo Benício vai pela mesma linha. Um trabalho de mesa. Atores discutem a peça de Nelson. Fernanda Montenegro, Stênio Garcia, Débora Falabella, Otávio Müller, Augusto Madeira, Lázaro Ramos. Pelo simples fato de colocar esse último no papel de Arandir, e sem nenhuma alusão explícita ao racismo, Murilo já deu outra dimensão ao personagem. Da mesa também participa o diretor Amir Haddad. Dessas conversas – há um eco de Eduardo Coutinho, Jogo de Cena -, Murilo corta para as cenas encenadas realisticamente, no cinema. Numa cena, corta e estamos num teatro. Parei para pesquisar. O Beijo no Asfalto, a peça, é de 1960. Teve duas versões para o cinema, a de Flávio Tambellini (pai) em 1964 e a de Bruno Barreto em 1981. Nenhuma delas, sinto, se equipara nem de longe ao que Murilo Benício propõe. O texto de 57 anos nunca foi tão atual. Parece ter sido escrito ontem, para refletir esse Brasil selvagem de hoje. O massacre moral e físico de Arandir é de arrepiar. Fernanda, como dona Matilde, é a maledicência encarnada. Sua frase final, da grande atriz, não da personagem, é de uma preciosidade irretocável. A síntese perfeita dessa merda toda. E ah, sim, a fotografia, em preto e branco, é de Walter Carvalho. Acachapante!

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