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Mostra (14)/Ozpetek e os argentinos

Luiz Carlos Merten

26 Outubro 2018 | 07h39

Meu colega, repórter de teatro, Leandro Nunes foi visitar ontem à tarde o galpão de ensaios de Gabriel Villela, que deve estrear no dia 8 seu novo Albert Camus, Estado de Sítio. Queria fazer-lhe uma surpresa, já que não nos vemos nem falamos há meses e justamente nessa data estarei no Rio, no festival. Fui atropelado pela Mostra. Queria entrevistar Ferzan Ozpetek, e ele marcou para as 5 da tarde. Conversamos em italiano – e eu fiz meu número, dizendo que nunca aprendi formalmente a língua nem sua sintaxe (scusa, caro); comecei a falar de ouvido, assistindo aos filmes de meus mestres. A entrevista foi ótima. Ozpetek não apenas é jurado como está apresentando seu novo filme na Mostra, História de Nápoles. Não é o seu melhor, mas comentei com ele o prazer estético e até erótico que tenho ao ver seus filmes. Independentemente de gênero – homens e homens, homens e mulheres, mulheres e mulheres -, Ozpetek gosta de filmar os corpos. O assunto rendeu e, de repente, ficamos um tempão falando dessa mulher disturbata, Vittoria Mezzogiorno, para chegar aos temas do filme – o útero, o olho, os gêmeos. Disse que ele precisava ver o novo François Ozon, e Ozpetek pulou na cadeira. Ainda não assistiu a O Amante Duplo, mas un amico lhe disse que tem de ver o filme. Apesar das diferenças – Ozpetek é atraído pelo mundo invisível, Napoli Velata, Naples in Veils -, os dois têm muita coisa em comum. O filme do autor ítalo-turco passa às 16h10 no Itaú Augusta. Agora pela manhã, quero fazer um duplo ‘argentino’, assistindo a um dos dois Solanas, Viaje a Los Pueblos Fumigados, e ao Pablo Trapero, La Quietud, com a sublime Graciela Borges. Viaje passa nesta sexta, 26, às 18h40, no Itaú Augusta, logo depois do militante La Hora de Los Hornos, de Solanas e Octavio Getino, programado para 14 h e que vi pela primeira vez completo – e restaurado -, em Cannes, em maio. E tem o Godard, Imagem e Palavra, no Cinearte Petrobrás, às 18 h, sobre o qual fiz matéria no C2 de hoje. Com sua voz trêmula, Godard diz que a guerra já chegou e acrescenta que não se pode desvincular as atitudes dos governos das de seus cidadãos, mais ou menos o tema de meu post anterior, sobre Rasga Coração. O risco, como ensina o personagem de Marco Ricca na adaptação de Oduvaldo Vianna Filho, é ficar falando só para quem pensa como a gente. A massa já enlouqueceu e parece perdida nas redes sociais.