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Mostra (14)/Fernando! E Lisandro!

Luiz Carlos Merten

31 de outubro de 2019 | 08h18

Já havia cravado no blog e, ontem, coloquei no texto para o Estado, no encerramento da Mostra. Dois Papas é o melhor filme de Fernando Meirelles. Ontem pela manhã, voltei a falar com ele. Havíamos conversado há cerca de um mês, sobre o documentário que ele coproduziu, A Grande Muralha Verde. Ontem, depois de assistir ao filme, a conversa foi sobre a produção da Netflix. Fernando estava feliz da vida. Disse que o alforrioei. Por mais lembranças que guarde de Cidade de Deus, por mais que o filme tenha sido importante para ele – um salto gigantesco desde Domésticas e O Menino Maluquinho 2 -, ele não aguentava mais ser sempre cobrado e comparado. City of God! Foi uma conversa ótima sobre o filme, envolvendo o roteiro e a montagem, a cargo de um garoto de São Paulo (e que Fernando colocou nas nuvens, cobrindo-o de elogios). Falamos sobre a reconstituição da Capela Sistina, num estúdio em Cinecittà, onde o diretor viveu seu momento Eiseinstei. A filmagem de Outubro/Dez Dias Que Abalaram o Mundo. Eiseinstein sentado no trono do czar. Fernando no trono do papa! Pedi-lhe que me enviasse a foto para publicar no Caderno 2. Cada vez que pendo em Dois Papas gosto mais do filme. O som que Fernando corta na cena da confissão de Ratzinger/Bento XVI. Ele deve estar falando da pedofilia na Igreja, mas seria demais colocar palavras de culpa e arrependimento na boca do papa. A fala de Bento para Jorge (Bergoglio), que ainda não é Francisco, pedindo que tenha, para si, a misericórdia que prega para os outros. Aquilo, pelo significado humano – e não apenas -, já foi para o meu Olimpo, com o diálogo de Rocco e Nadia na cena do café, quando se reencontram em Rocco e Seus Irmãos; John Wayne que abre os braços para neles acolher Natalie Wood em Rastros de Ódio; a cena em quje a jolverm Emmanuelle Rikva corre de bicicleta para os braços do amante alemão (On faisait l’amour partout); o órgão lancinante que entra sobre a imagem, em contraplongê, de Rodrigo morto, atado ao seu cavalo em El Cid, pasra comandar a última ofensiva, etc. Tudo o que sou e creio, na vida e no cinema, acho que vem desses fragmentos que imantam meu imaginário. Saí do Fasano, e da conversa com Fernando Meirelles, e corri para o Renaissance, onde esperei pelo final da reunião do júri para entrevistar Lisandro Alonso. Los Muertos, Liverpool, Jauja. Buenos Aires foi minha cinemateca e, ao escrever isso, vêm-me à lembrança imagens da juventude. Doris e eu nas manifestações contra a ditadura militar – Si Evita viviera seria montonera. A Argentina ganhou duas vezes o Oscar, faz o cinema que parte do público brasileiro gostaria que fosse o nosso, tem grandes diretores, mais o maior é também o mais secreto – Lisandro. É que nem o cinema mexicano. Alejandro González-Iñárritu, duas vezes, Guillermo Del Toro e Alfonso Cuarón podem estar cobertos de Oscsars e glorificados pela Academias, mas os ‘meus’ autores mexicanos são Arturo Ripstein e Carlos Reygadas. Gostaria que O Diabo entre As Pernas tivesse vencido o prêmio da crítica. O Ripstein ou Dois Papas, pela excelência artística e pela autoridade moral de Francisco como crítico da globalização, mas o Meirelles não podia concorrer (me disseram). Venero meus clássicos, Visconti, Ford. Mas curto demais o cinema que dinamita a narrativa em três tempos. A estrutura de Jauja. Vigo Mortensen na guerra contrra os indígenas e, de repente, a garota naquele castelo. Lisandro me disse uma coisa interessante. Hoje, somos todos filhos do Google. Se a televisão libertou toda uma geração da percepção linear, como a decorrente da leitura de um livro, e McLuhasn, o teórico da comuniocação, conceitou a assimilação da cena como um todo pelo público da TV, hoje a gente ‘googa’ para fazer uma pesquisa e abrem-se tsantas janelas que, daqui a pouco, a anos-luz do nosso objetivo original. Foi ótimo conversar com Lisandro. Disse-lhe que estava curioso parta ver a escolha do júri, que incluía Beto Brant e Maria de Medeiros. De novo ele foi muito interessante. Comparou a Mostra a Toronto. É gigantesca, e suja estrutura permite que cada um faça sua mostra, seu festival. O problema é que o júri está atado à escolha do públicvo e só pode escolher sobre uma fatia precisa da programação. Pelo que entendi, o júri dividiu-se – e manteve a divisão. Venceram o Troféu Bandeira Paulista, ex-aequo, o australiano Dente de Leite, de Shannon Murtphy, que não vi e pretendo recuperar na repescagem, e o alemão System Crasher, de Nora Fingscheidt, que havia visto em Berlim (onde vence o Urso de Prata). Acho que também vou rever, porque, embora bom, não era dos meus preferidos na Berlinale.