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Mostra (13)/Um homem sem importância

Luiz Carlos Merten

25 Outubro 2018 | 23h17

Ao longo deste ano, o debate sobre o tema do título tem me dilacerado, por motivos que não cabe elucidar. Surpreendo-me por nunca haver pensado no filme de Alberto Salvá, com Oduvaldo Vianna Filho, o Vianninha, mais perfeita encarnação do homem comum brasileiro no teatro, cinema e TV desse País. O filme de 1971 me veio numa conversa agora à noite, depois de assistir à adaptação de Rasga Coração, por Jorge Furtado, na Mostra. Estava conversando com Amanda Maira Steinbeck, que há 12 anos estuda a obra de Vianninha e fez um remarca muito interessante no debate após a projeção. Por isso fui falar com ela. Mas quando citei o filme, Freud explica, citei justamente como ‘O homem comum’. De repente, numa questão de minutos, tudo fez sentido para mim – essa m… toda que estamos vivendo. Há uma casta que, nas relações interpessoais, políticas e econômicas, estabelece quem ou o quê tem importância e acha que vale mais e pode tudo para seu bem-prazer. F…-se os outros, é o cinema nacional expondo a quebra de confiança nas instituições e no amor, que era o tema de Alan J. Pakula nos anos do escândalo Watergate, nos EUA. Muito elucidativo, revelador. Não gostei do novo filme de Jorge tanto quanto gostaria. Não consegui entender a temporalidade, até porque Vianninha escreveu sua peça para pensar o Brasil dos anos 1940 aos 70 e Jorge situou o filme em dois tempos que nunca me pareceram muito claros, 1979 e 2013. Toda essa construção dramática leva ao confronto entre pai e filho, quando Marco Riicca e Chay Suede, Manguari Pistolão e Luca, discutem e o primeiro expulsa o filho de casa. Impossível não pensar em Eles não Usam Black-tie, de Gianfrancesco GUarenieri, que é anterior, até porque há uma conversa entre marido e mulher, Ricca e Drica Moraes, em que ela evoca o pai do marido, que espalhava grãos de feijão pela casa. O pai reclama do filho, da sua passividade, o garoto atira na cara do velho que é funcionário público, dependendo do governo que quer destruir. Jorge, lembrou muito bem a Amanda, suprime a fala final desse diálogo tenso, quando o pai diz que revolucionário é ele e o novo que o filho proclama ser… Alguém acha que tem a ver com esses políticos que, na eleição, se apresentam como novos, e não são? Com cereteza, mas eu fiquei ensimesmado com a ausência da frase. Terá sido para cooptar o público jovem, que, em caso contrário, acharia o filme coisa de comunista velho? Insatisfatório e até contraditório como me pareceu – as questões de gênero, mais fortes que a luta de claseses; o estudante negro, abandonado na prisão (para ser torturado?) -, o filme tem esse momento realmente forte entre pai e filho, para o qual converge toda a sua arquitetura dramática. De minha parte, estou pensando em adotar a T-shirt que me mandou a produção de Todas as Canções de Amor – I’ll survive, que está na trilha do filme de Joana Mariani. Só me pergunto se devo usar no dia da eleição, porque nesse Brasil que enlouqueceu, poderá ser considerado provocação, passível de porrete.