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Mostra (12)/Lento e bruto eu mudo, e chegou Outubro!

Luiz Carlos Merten

27 de outubro de 2019 | 10h27

Gostei demais de Honeyland, o documentário encenado – à maneira de Robert Flaherty – da Macedônia, mas quero dizer, e talvez surpreenda, que tive minha epifania, no sábado, com outro documentário, de Maria Ribeiro e Loiro Cunha, Outubro. Nei Duclós, grande poeta, meu colega em Porto Alegre – Lento e bruto eu mudo, sei que vem outubro. Uma semana que abalou o Brasil, para pegar carona em Sergei M. Eisenstein. Os últimos dias da campanha presidencial de 2018, culminando com a vitória de Jair Bolsonaro no domingo. Maria, vestida de noiva – sem o véu, mas com o vestido de seu casamento -, anda pela Paulista, naquele mar de amarelo, comparando o fim do processo (eleitoral) ao de uma relação. Jogo de cena – era mesmo Maria Rita Kehl fazendo aquela análise brilhante ou Cássia Kiss Magro no papel da psicanalista, jornalista, ensaísta, poetisa, cronista e crítica literária? Brinco, claro, mas a semelhança, para mim, bateu como um golpe. O filme começa com um beijo e termina… Como? Veja, para saber, mas Maria e Loiro arranjaram o melhor fecho para o que não deixa de ser uma tragédia brasileira – só estando louco, para não reconhecer. Maria gosta de dizer que seus documentários anteriores, sobre Domingos de Oliveira e Los Hermanos, foram filmes de afeto. Recebi Outubro como um filme, um ato de amor. Passa a ser das melhores coisas que vi nesta Mostra, com o Ripstein, o Bruno Dumont, o Elia Suleiman. O Diabo entre as Pernas, Joana D’Arc, O Paraíso Deve Ser Aqui, e Outubro. A sessão de Loiro e Maria teve direito a Fernando Haddad na plateia e a gritos de Lula livre!, mas em nome da tal verdade uma senhora gritou no saguão do Arteplex Frei Caneca – Lula preso!, e ninguém a hostilizou por isso. O filme de Loiro e Maria ainda será exibido na terça. Neste domingo, passa um dos dois filmes do guatemalteco Jayro Bustamante na 43.ª Mostra. Temblores/Tremores é um drama gay sobre homem casado que assume relacionamento com outro homem e a família recorre à cura gay oferecida por um pastor evangélico. Jayro colocou a Guatemala no mapa do cinema mundial com o belíssimo Ixcanul, em 2015. Este ano, ele está cravando não um, mas dois filmes na Mostra – o outro é La LLorona, um terror político construído em torno ao tema da mãe condenada a chorar pela eternidade, depois de matar, como Medeia, os próprios filhos. Amanhã, segunda, os dois filmes estarão na Mostra, em horários alternados. Prometo voltar a eles, porque gosto demais do Bustamante.

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