As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Canções de amor, Taba(jara) e o País que nos aguarda

Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2018 | 23h49

Poderia estar postando sob o selo ‘Mostra’, como não. O filme de Joana Mariani, Todas as Canções de Amor, integra a programação, mas a junkett desta quarta, 24, foi um evento à parte. Adorei reencontrar Bruno Gagliasso, conhecer Marina Ruy Barbosa. No post anterior, tendo lido a sinopse num desses guias de programação, o da Folha, escrevi que Marina e Bruno são recém casados, trocam de casa e ela encontra uma carta da moradora anterior. Não é carta, é uma fita cassete com as canções de amor do título. Maria Gadú, de quem eu nunca gostei muito, confesso, faz a direção musical. É admirável. O filme segue dois casais, em tempos diferentes. Nascimento e morte do amor. Numa cena, Bruno, no casal moderno, cobra de Marina – os personagens, bem entendido -, por que ela nunca lhe disse ‘Eu te amo’? Ela responde que as pessoas fazem a declaração sem pensar, sem sentir, porque acham que é o que o outro, ou outra, quer ouvir. A cena bateu fundo em mim. Joana Mariani, de alguma forma, fez o Eu Te Amo para o ano 2020. Em 1982, para contar sua história de amor, Arnaldo Jabor mirava no futuro – novas tecnologias, essas coisas. Joana viaja agora ao passado – fita cassete! -, mas faz um filme ‘clássico’, não uma peça de museu, como diz Bruno em outra cena. Minha quarta foi bem agitada. Físio, filme, entrevistas. Matérias. E às 19h30 eu queria estar no Shopping Eldorado para assistir, no projeto Projeta às 7, do Cinemark e da Elo Company, ao novo filme do meu amigo Tabajara Ruas. A Cabeça de Gumercindo Saraiva. Rio Grande, a guerra entre maragatos e pica-paus, a ditadura de Borges de Medeiros. O caudilho revolucionário Gumercindo Saraiva é assassinado pelos legalistas. Seu filho, Francisco Saraiva, parte com alguns cavaleiros para resgatar a cabeça do pai, cortada pelo Major Ramiro de Oliveira. Leonardo Machado, em seu último papel. Murilo Rosa como o militar a quem Ramiro delega a missão de entregar a cabeça, em Porto Alegre, ao governador da província. ‘Taba’, que foi meu colega – e de Tuio Becker – na Faculdade de Arquitetura, ama John Ford, Sam Peckinpah e Teixeirinha. A grandeza dos derrotados de Ford, a cabeça de Alfredo García, de Peckinpah. O filme narra a tragédia de um país dividido. O Brasil daquela época espelha/explica o de 2018? Sei que as novas gerações da crítica gaúcha desprezam o cinema de bombacha do Taba. Talvez devessem ver os filmes dele com um olhar menos preconceituoso – um outro viés – para entender o mundo em que vivem. Conversamos, Taba e eu, sobre o Brasil que nos aguarda, a se confirmaram os lúgubres presságios que cercam o domingo. Como a esquerda falhou tanto para que jovens negros de periferia se abracem na bandeira do Brasil em apoio ao coiso. Entrevistei Lars Von Trier em Cannes, em maio. Mas encontrei hoje, na Cinemascope de setembro, que comprei nas banca do Conjunto Nacional, uma frase dele muito interessante, na entrevista sobre A Casa Que Jack Construiu – as pessoas são idiotas demais para a democracia. Em princípio, seria tentado a criticar Lars – mais uma de suas frases de efeito -, mas pensando no Brasil que vejo tenho de lhe dar razão. A facilidade com que as massas são manipuladas. O tal whatsupp, que substituiu o debate. O horror, o horror.