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Mostra 11/Os vencedores

Luiz Carlos Merten

02 de novembro de 2016 | 22h43

Estou voltando do Parque do Ibirapuera, onde, em nome da crítica, entreguei o prêmio para os melhores filmes da 40.ª edição, no encerramento da Mostra. Tenho de fazer uma autocrítica. Não creio que tenha me saído muito bem ao anunciar o primeiro prêmio, para o melhor nacional. Embora tenha redigido o texto, não quis ler, resolvi improvisar e melou. Mas, enfim… Existem dois prêmios da crítica na Mostra. O da Abraccine, associação da qual não faço parte, que segue as regras da competição e premia somente filmes brasileiros habilitados para o Troféu Bandeira Paulista, ou seja, primeiros filmes de diretores que estejam até no segundo trabalho. O outro júri, que integro, é um colegiado de cerca de 30 profissionais de todo o Brasil, que exercem suas atividades na Mostra. Em geral, escolhemos um filme, mas este ano, considerando que a seleção brasileira da 40ª Mostra está excepcional e seria injusto privar os demais autores de concorrer, resolvemos atribuir dois – dois prêmios, nada de menções. As justificativas:
Celebração estética, humana e política, o filme vale-se de encontros para traçar o retrato de um artista cidadão. Por meio dele, retrata também o Brasil e os brasileiros. O melhor filme nacional da 40.ª Mostra é Pitanga, de Beto Brant e Camila Pitanga.
Um delicado retrato de família. Marido, ex-mulher, filho, avó. Por meio de cenas simples e diálogos densos, mas também poderiam ser diálogos simples, diretos e cenas densas, é todo um mundo que o diretor revela. E esse autor até hoje não teve o reconhecimento que merece no Brasil. O melhor filme estrangeiro é Depois da Tempestade, do japonês Hirokazu Kore-eda.
Os dois filmes estarão na repescagem, que começa amanhã, quinta, 3, no Cinesesc. Vamos ter os eleitos de todos os júris. Mais focado que o oficial do Rio, o daqui, integrado por Jeferson De – que me disse que se apaixonou pelo vencedor -, escolheu El Amparo, de Rober Calzadilla, da Venezuela, que não vi e agora tenho de recuperar. O filme tem tudo a ver com o Brasil & Cia. Um grupo de pescadores confraterniza, chega o Exército e promove um banho de sangue. Mata 12, sobram dois. E, para justificar a barbárie, a repressão – poderia ser certa polícia, não? – planta evidências de que os caras, trabalhadores, eram terroristas. Vemos muito esse filme, Mas Jeferson, em quem se pode confiar, garante que o venezuelano é muito forte, e impactante. Hay que creer. Ainda bem que forcei meus amigos Dib e Jussara a verem O Ídolo, e a sessão está sendo agora. Contava que o longa do palestino Hany Abu Assad vencesse o prêmio do público, mas a massa da Mostra, muito safadinha, escolheu o pornô chique do coreano Park Chan-wook, Handmaiden. Exagero com essa coisa de pornô chic. O filme certamente carrega no sexo – hetero, homo, sadomasô -, mas a história é intrigante, cheia de reviravoltas e… Deus! A verdade é que esses coreanos e coreanas são de uma beleza de cortar o fôlego. Para voyeurs, Handmaiden é um regalo. E, sim, confirmou-se aquilo que havia sugerido. Luiz Fernando Carvalho vai mostrar no encerramento da repescagem, na sexta da próxima semana, Lavoura Arcaica. O entusiasmo de meu jovem colega Guilherme Sobota, que nunca viu o filme, é a prova de que há uma garotada ansiosa pela colheita verbal que Luiz Fernando transcriou a partir do texto de Raduan Nassar.