As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Mostra (10)/Pessoas de bem? Aqui, ó

Luiz Carlos Merten

26 de outubro de 2019 | 09h49

Assisti a Pacified, na quinta à noite. Pacificado – mas o título bate em inglês na tela. O norte-americano – até onde sei, texano – Paxton Winters fez o filme baseado em suas observações sobre a vida em comunidade, no Rio. A estrutura lembra O Poderoso Chefão, mais que City of God/Cidade de Deus – já que, segundo a concorrência, o filme adota modelos hollywoodianos de narração. Jaca sai da cadeia e volta à comunidade, que agora tem novo ‘dono’. Nelson é brutal, instalou o reinado do terror no morro. Jaca está cansado de violência, quer vida mansa – monta uma pizzaria -, mas todos lhe cobram que, com o fim das UPPs, a favela vai explodir e o chumbo vai comer grosso na disputa pelo poder. Jaca retomará o comando? Recomendo que parem de ler porque vai ter spoiler. Se Jaca vencesse sua resistência – covardia? – e partisse para o pau, teríamos a boa e velha luta pelo poder. Mas Winters segue uma via meio torta. Até pela conexão italiana, Jaca é estrategista, quer ser ‘conseglieri’, um conselheiro como Robert Duvall na trilogia de Francis Ford Coppola. E tudo é visto pelo olhar da garota, que é, mas pode não ser filha de Jaca. Ou melhor – que não é, mas vira filha dele. Gostei de muita coisa em Pacificado, a começar pelo elenco. Léa Garcia, como a avó. Débora Nascimento, desglamourizada, como a mãe e, principalmente, Cássia Gil, como a garota, Tati, e Bukassa Kabengele, como Jaca. Ele foi o melhor ator, e Pacificado também venceu melhor filme e fotografia em San Sebastián – a Concha de Ouro. Viajei – Bukassa me lembrou um Eliezer Gomes com menos massa física, mas ele tem força e segura bem o olhar do pitbull de Nelson; Cássia tem a boca de Luiza Maranhão, a Sophia Loren negra do cinema brasileiro dos anos 1960. Eliezer e Luiza vêm diretamente de Assalto ao Trem Pagador, o policial clássico de Roberto Farias nos anos 1960. Eram outros tempos, o asfalto e o morro, mas no Rio de Crivella e Witzel o horror é incomparavelmente maior. A cena em que o soldado brutaliza a garota sob o olhar da mãe é revoltante. Pessoas de bem? Aqui, ó.