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Mostra (2)

Luiz Carlos Merten

16 de outubro de 2014 | 08h43

Começou! E a 38.ª Mostra iniciou-se ontem para convidados com o longa argentino Relatos Selvagens, de Damián Szifron, que já virou um fenômeno no Prata. Mais de 3 milhões de espectadores na Argentina, coisa nunca vistas no país, onde 1 milhão de pagantes já é o marco do megassucesso. Conversei com o diretor, com a atriz Erica Veras, que o acompanha. Simpaticíssimos. Relatos é um filme sobre a falta de controle, e no conturbado mundo atual é fácil identificar-se, no escurinho do cinema, com a noiva traída que destrói o próprio casamento ou o homem que decreta guerra à burocracia do Estado. Quem nunca quis mandar tudo para o alto, dar porrada? A civilidade nos mantém nas normas, mas os personagens de Szifron cedem à barbárie. Em Cannes, Pedro Almodóvar, que coproduz com o irmão Agustín, através da El Deseo, o filme argentino, disse que ficou muito atraído pelo aspecto ‘selvagem’ dos contos. O filme estreia na quinta que vem, distribuído pela Warner. Há expectativa – do diretor, da distribuidora – pelo resultado. Relatos Selvagens traz umas verdadeira constelação de astros latino (ou ibero)americanos. Ricardo Darín, claro, mas também Oscar Martinez, Dario Sanguinetti, Leonardo Sbaraglia. Estamos acostumados a vê-los cada um em seu filme, não compartilhando o mesmo cartaz, como ressaltou Szifron, e isso somou ao apelo popular. Enfim, a partir de hoje serão mais 344 filmes, durante duas semanas, em 25 locais de exibição da cidade de São Paulo. Tenho feito muitas matérias para o Portal do Estado, para o Guia (Divirta-se). Muitas indicações de filmes. O Segredo das Águas, de Naomi Kawase, que era meu favorito à Palma de Ouro; Jauja, de Lisandro Alonso; e Casa Grande, de Fellipe Barbosa, que o júri do Rio (criminosamente?) ignorou. Tirei ingresso para ver dois filmes hoje – à tarde, Camaradas, de Marin Karmitz, na retrospectiva do diretor, produtor, distribuidor e exibidor francês, e à noite Tsili, o novo Amos Gitai. Minhas prioridades na Mostra serão os vencedores de Veneza – os filmes de Roy Andersson e Andrei Konchalovski, mesmo que a filosofia do primeiro me pareça coisa de almanaque – e ver ou rever filmes brasileiros. Estou muito curioso pela História da Humanidade, de Camilo Cavalcanti, que venceu Paulínia e tenho reduzido ao mínimo meus comentários sobre Sangue Azul, que ganhou no Rio, porque não estava bem quando vi o filme e não quero ser leviano com um diretor que estimo (lírio Ferreira). Para os primeiros dias, vou dar no blog dicas bem particulares. Por exemplo, hoje e amanhã passam Conto de Cinema, de Hong Sang-soo e O Fim de Uma Era, de Bruno Safadi e Ricardo Pretti, que me encantam e abordam o próprio cinema. Para estimular o diálogo entre teatro e cinema, também existem dois superprogramas, hoje e amanhã. Além das Nuvens, de Olivier Assayas, tem Juliette Binoche como a estrela assistida pela fiel secretária (Kristen Stewart) e que vê a jovem Chloe Grace Moritz retomar seu maior papel. É muito interessante como Assayas, que foi casado com uma top star asiática – Maggie Cheung -, olha o mundo das celebridades. A mídia corre atrás de Chloe, mas não por seu grande talento e sim porque o parceiro, outra celebridade, está largando a mulher para ficar com ela. O outro programa de ‘teatro’ é Falstaff. Orson Welles adapta trechos de peças de Shakespeare para celebrar o mais boêmio e fanfarrão dos personagens do bardo. O filme é um triunfo da imaginação, da inteligência, mas foi feito com recursos parcos, numa pobreza franciscana que, ao invés de me constranger, me comove. E o elenco! Jeanne Moreau, Margaret Rutherford, John Gielgud, Marina Vlady e Welles (claro). Magnífico!

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