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Mostra (1)

Luiz Carlos Merten

11 de outubro de 2014 | 08h14

Sai o Festival do Rio, entra a Mostra de São Paulo. Voltei do Rio com apenas uma frustração – havia tentado ver Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa, e foi um dos raros filmes substituídos (o único?) à última hora. Em todas as demais sessões do filme eu tinha Première Brasil, debates. Sobrava o último dia, mas batia com a premiação. Se eu soubesse que ia assistir àquela comédias de erros talvez preferisse o Pedro Costa. Frustração à parte, foi um belo, um grande festival. E agora começa a Mostra. Não estou comparando, mas é impossível sair de um grande evento de cinema e entrar em outro sem ser afetado pelo primeiro. Dei ontem minha primeira olhada na relação dos filmes da Mostra. Maria Eugenia Menezes, que edita o guia do Estado, me pediu uma lista de cinco imperdíveis. Naomi Kawase, que era minha candidata à Palma de Ouro, com Still the Water – o filme vai-se chamar aqui O Segredo das Águas – e Jauja, de Lisandro Alonso, entraram rapidinho na minha lista. Como recebi uma lista em bloco, a Mostra também resgata filmes cults da minha vida, que não sei exatamente como entram na programação. Talvez na seleção de Martin Karmitz, um dos homenageados, pode ser. O Espírito da Colmeia/El Espiritu de la Colmena, de Victor Erice. E outro filme de Erice. Jamais conseguirei reproduzir o espanto, o impacto que me causou a projeção de El Sol del Membrillo no Festival de Cannes. Ainda era neófito no maior festival do mundo (em 1992)  e vinha aquele filme não narrativo, fora dos cânones. Um documentário? Não exatamente. O mundo todo cabe no jardim do estúdio do pintor António López. Há ali uma árvore, um marmeleiro. López arma seu cavalete, coloca a tela e se propõe a uma tarefa que parece simples. Captar a luz nos frutos, mas ela muda a todo instante. O mistério primevo do cinema, que é luz, dizia Abel Gance. Com as novas tecnologias, meu amigo Gabriel Villela está tendo de mudar seu discurso. Em nossas conversas sobre teatro e cinema, ele sempre encerrava o assunto com o argumento definitivo. Chega, vou tirar da tomada. E acabava-se o mistério. Nunca revi O Sol do Marmeleiro, mas se o filme continuar me causando um décimo do efeito que teve sobre mim já será imenso. Genial e indescritível. A Mostra promete.

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