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Morangos Silvestres, o ‘meu’ Bergman na Colônia de Férias

Luiz Carlos Merten

22 de julho de 2017 | 13h04

Ingmar Bergman é o autor desta semana na Colônia de Férias do Belas Artes. Toda dia, e numa só sessão, às 18h30, um filme do grande diretor. Se não fosse por O Ovo da Serpente, que tem seu interesse mas não é um grande Bergman, poderia inverter. Todo dia um grande filme do diretor. Começou com O Sétimo Selo, mostrou na sexta A Fonte da Donzela. Hoje passa Morangos Silvestres, no domingo, O Sétimo Selo (de novo) e, depois, na segunda, terça e quarta, Gritos e Sussurros, O Ovo da Serpente e Morangos (mais uma vez). Por mais que goste de O Sétimo Selo e Gritos e Sussurros, Morangos Silvestres é o ‘meu’ Bergman. A odisseia interior do professor Isak Borg, que pega a estrada para ser homenageado em outra cidade. Bergman tinha verdadeira devoção por Victor Sjöström – li uma entrevista em que ele contava que, todos os anos, após o réveillon, via A Carroça (ou Carruagem) Fantasma para iniciar bem o ano. Sjöström – os norte-americanos o rebatizaram como Seastrom, quando lá dirigiu (O Vento) – não era ator, mas é genial como o professor que atravessa os planos da realidade, da lembrança e da imaginação para se purgar de uma vida sem amor. Em 1957, quando Bergman misturou passado e presente nas mesmas imagens, o procedimento ainda era raro. Somente outro sueco, Alf Sjoberg, se valera do recurso em sua versão de Senhorita Júlia, acho que de 1951. Depois, Paul Newman (Rachel, Rachel) e Elia Kazan (Movidos pelo Ódio), por volta de 1970, fizeram o mesmo, mas não me lembro de nada mais belo, ou pungente, do que o velho Borg no jardim de sua juventude, clamando pela mulher – ‘Sara! Sara’ – que foi seu grande amor. O filme abre-se com o pesadelo – Borg sonha que a carruagem da morte vem buscá-lo, e as cenas evocam o próprio clássico de Sjöström. No final, ele morre em paz consigo mesmo ou dorme feliz, depois de decifrar o enigma de sua vida? É um dos mais belos finais do cinema e o filme tem todas aquelas cenas antológicas – o casal que se agride no banco traseiro do carro (as sempre terríveis cenas de casamento de Bergman), os jovens, e Bibi Andersson que entrega ao professor aquelas flores, e a máscara de Ingrid Thulin como a nora infeliz, porque o marido, Gunnar Björnstrand, está seguindo o mesmo caminho frio e rígido do pai (e não quer ter filhos). Pauline Kael dizia que Morangos Silvestres é muito irregular, que é uma odisseia muito pesada etc. E daí? Eu nunca me esqueço do rosto de Victor Sjöström e, à medida que envelheço, penso mais no filme e seu mistério no tocante à investigação dos grandes temas do homem – a vida, o amor, a morte. Quando ouço falar em profundidade no cinema, não a de campo (mas também), penso comigo – esse é um dos raros filmes dos quais se pode dizer que é profundo. Morangos Silvestres é um dos filmes da minha vida. Com Rocco, Hiroshima, Rastros de Ódio, A Primeira Vitória e uns poucos mais. Um programão para esse sábado invernal