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Money never sleeps

Luiz Carlos Merten

24 de novembro de 2012 | 10h25

RIO – Não dei notícias nos últimos dias, mas minha estada no Rio tem sido corrida. Sigo fazendo matérias diárias na sucursal do ‘Estado’, vejo filmes do Festival 4 + 1, tenho visto cabines, como a de ‘Marcelo Yuka no Caminho das Setas’. Já havia visto op filme de minha colega Daniela Broitman no Festival do Rio e não me empolgara. Ontem, fiquei tocado de uma maneira muito especial, e Freud deve explicar porque, na complexidade do filme – e da figura do Yuka -, o que mais mexeu comigo foi uma cena dele com o irmão, quando ele quer quwe o irmão escolha uma entre suas pranchas ded surfe e o garoto diz que não, que já tem as dele. Yuka insiste, o irmão bate pé – não, não, não. E diz a frase que me derrubou, ‘Tu já desistiu, cara? Perdeu a esperança?’ O filme evoca o incidente que deixou o ex-baterista e ideólogo do Rapa tetraplégico, a ruptura do grupo, a radicalização de Yuka como artista e sua batalha como cadeirante, porque é uma batalha diária. É um documentário sobre músico, com música, mas não é musical. É outra coisa, e essa outra coisa vocês vão desciobrir na sexta que vem, quando ‘No Caminho das Setas’ estará estreando. Simultaneamente com o 4 + 1, que vocês podem acompanhar pela internet, o Rio sdedia atualmente a Semana dos Realizadores, e já comprei meu ingresso para ver hoje o novo Júlio Bressane, e um festival da consciência negra, com curadoria de Zózimo Bulbul. O CCBB daqui está uma loucura, com um monte de gente – jovens, principalmente -, vendo os filmes de 4 + 1 e correndo atrás de Werner Herzog, mais as multidões que fazem fila para ver os impressionistas. 4 + 1 termina amanhã, com o anúncio do filme vencedor – o prêmio é do público -, mas a programação segue online até dia 30. É o evento único no mundo. Cinco cidades, uma é sempre sede, e este ano é o Rio – as outras são Bogotá, Buenos Aires, Cidade do México e Madri -, e uma seleção que é possível acompanhar não só nestes lugares, mas em todo o mundo onde houver rede. Sugiro que procurem a Master Class de Herzog, que deve estar disponível. Foi ótima, e ele é sempre polêmico. Deu um pau na Academia – fujam dela, se quiserem ser cineastas, disse aos jovens -, e provocou risadas ao acrescentar que teria muitos conselhos práticos a dar a quem pretende se iniciar nesta pasrticular forma de expressão. Herzog não teve formação acadêmica de cinema, não foi à escola. Seu conselho aos jovens – leiam, leiam, leiam, e não livros de cinema, mas poesia. Andem muityo, como ele andou da Alemanha à Espanha, convencido de que, enquanto estivesse na estrada, Lotte Lenya, que era para ele uma inspiração, estaria viva (e ela estava morrendo). Caminhar, observar, ler. Tudo isso aguça o olhar, enriquece a alma. Herzog disse que poderia acrescentar mais umas dicas – sobre como forjar um documento, ou forçar uma porta. ‘Fitzcarraldo’ não teria sido feito, se ele não tivesse enganado os militares, falsificando documentos de autorizações que não lhe davam, no Brasil nem na Amazônia peruana. E ele diz ‘Amazonía’, acentuando o I.  Herzog ama o Brasil, Lula, Dilma e o futebol. Daria dez anos de vida para abraçar Garrincha, seu ídolo. Está sendo uma semana intensa aqui no Rio. Daqui a pouco vou viositart um sert, ontem atravessei outro por acaso. Saí do CCBB 21h30, por aí, e fui para Copacabana, porque queria jantar na Tratoria. Havia uma filmagem, na própria rua, vejam só. Jantei pão de alho, filé de tilápia. Estava sozinho, mas não me queixo Gosto desses mergulhos na solidão, especialmente quando estou perturbado por alguma coisa que vi, e ontem estava. O motivo da perturbação era o novo Johnuy To, que pega carona na crise financeira, no colapso da Grécia e seu reflexo nos mercados mundiais, na Ásia, que é o que lhe interessa. ‘Life without Principle’ é um thriller criminal forte e intenso, em que gângsteres se matam mas o verdadeiro crime é praticado nos bancos, com seus juros extorsivos. Naturalmente que os defensores dessa ordem econômica vão dizer que não é bem assim, mas como filme é ótimo. Johnny To fez o que Oliver Stone queria ter feito em ‘Wall Street 2’. Mais que o autor norteamericano, ele mostra que o dinheiro nunca dorme. Volto a Herzog para corrigir uma informação errada. Sempre que falo em ‘Into the Abyss’, cito a cena em que o capelão da cadeia disserta sobre o Todo-Poderoso en o diretor quebra seu discurso pronto perguntando sobre seu encontro com… Escrevi, na própria entrevista do Estado, com ‘pardais’, confundindo sparrow com squirrell, que é o que ele diz. Esquilo. O bicho não aparece, foi um erro de escuta, sorry. Pardal ou esquilo, seria a mesma coisa. O capelão, que vai acompanhar o condenado à morte, tem um discurso pronto sobre a misericórdia de Deus por todas as suas criaturas, sejam homens ou animais. Herzog quebra a formalidade com a pergunta inesperada e, ao falar sobre seu encontro com os esquilos, o religioso finalmente se emociona. É um exemplo que ele dá de como o diretor de cinema, de documentários ou ficções, não importa, não deve ter uma agenda de jornalista, com nossa alegada ‘objetividade’, mas de poeta.

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