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Momentos definidores

Luiz Carlos Merten

25 de fevereiro de 2018 | 16h29

Saí para almoçar com Dib Carneiro e, no intervalo entre posts, o anterior e esse, contei-lhe que me ocorreu algo. Ele riu, porque conhece a bagunça da minha casa, mas imagino que alguém possa duvidar. Fui recolocar o livro do John Harkness – o Handbook do Oscar – na estante, abri espaço e me chamou a atenção um volume atrás. Não faço a menor ideia de quando nem onde comprei Defining Moments in Movies, da Cassell Illustrated, mas o livro é fascinante e deveria ser editado no Brasil. Tem 800 páginas, e não estou conseguindo largar. Momentos definidores do cinema. Filmes, e não apenas. Buster Keaton como o projecionista que salta dentro do filme de Sherlock Jr., antecipando a Mia Farrow de A Rosa Púrpura do Cairo, a cena da escadaria de Odessa, o plano final de Rainha Cristina, o final de Cidadão Kane, o de Victor Sjostrom em Morangos Silvestres, as pausas de James Stewart quando o advogado vai apresentar evidências do estupro no tribunal de Anatomia de Um Crime e ele fica repetindo ‘I beg the Court’ e por aí vai. Grandes filmes são citados, mas não necessariamente pelas cenas pelas quais os identifico. Ladrões de Bicicletas não é pelo apoio final do filho ao pai, mas por uma cena anterior em que o pai leva o filho ao restaurante e deixa que o menino beba vinho – sua entrada no mundo adulto – e isso vai inspirar a atitude final de Enzo Staiolo. Em Rastros de Ódio, não é o começo nem o fim – a porta que se abre e fecha sobre John Wayne -, mas o plano em que o racista Ethan Edwards, que perseguiu Natalie Wood o filme todo para matar a sobrinha que virou índia, corre atrás dela, Jeffrey Hunter o segue gritando ‘Não, não!’ e Ethan finalmente abre os braços para acolher Debbie, etc. Procurei, mas não encontrei cenas para mim emblemáticas – de O Intrépido General Custer, Rocco e Seus Irmãos, etc -, mas não houve nenhum momento evocado dos filmes que não me tenha tocado em áreas profundas. E não são só os filmes. Também são considerados definidores a estreia de James Agee como crítico em The Nation, o embate EUA vs. Paramount, que quebrou o truste praticado pelos grandes estúdios, o primeiro número de Cahiers du Cinéma, a quebra de contrato de Jaames Stewart, exigindo participação nos lucros de Winchester 73, o artigo de François Truffaiut sobre ‘Uma Certa Tendência do Cinema Francês’, o milhão de Liz Taylor para fazer Cleópatra, o ‘Zapruder Film’, o mais rentável da história – uma tomada de câmera doméstica em 8 mm do assassinato do presidente John Kennedy que, ao ser vendida, atingiu estratosféricos US$ 16 milhões, etc. E eis que descobro que, em 1961, nas Filipinas, Gerardo De Leon fez um desses filmes definidores. Chama-se Touch Me Not, como o que acaba de vencer Berlim, e a descrição da cena é coisa de Luis Buñuel. Um leproso que pede esmola, a torre da igreja, diversos planos na mesma imagem que visualizam a estratificação social e a Guarda Civil a cavalo, que domina, com a igreja, todo o quadro. A sequência, informa o livro, é um exemplo perfeito da suprema mise-en-scène do autor, que integra, na mesma composição, temas, personagens e relações. Chamou-me a atenção o título, mas depois de ler dei-me conta de que, tantos anos nesse ramo ou função, e ainda tenho muito para descobrir. Ainda estou na página 328, menos da metade do livro. Quantas descobertas ainda farei?

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