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Momentos definidores (2)

Luiz Carlos Merten

25 de fevereiro de 2018 | 18h16

Fui um pouco adiante no livro – Defining Moments in Movies – e não resisto a acrescentar mais esse post. Em 29 de novembro de 1968, Jean-Luc Godard brigou a socos com o produtor Ian Quarrier pela interferência desse numa cena de One Plus One, que rebatizou como Simpathy for the Devil e aumentou por sua conta a canção dos Rolling Stones nos créditos finais. Godard considerou que isso afetava seu conceito e partiram para as vias de fato, radicalizando, na vida – agora sou eu dizendo -, o divórcio entre arte e comércio que o próprio Godard esboçara em O Desprezo, quando o produtor Jack Palance diz que puxa o talão de cheques cada vez que ouve falar em arte. Mais algumas páginas e encontro a confirmação daquilo que encontrei no livro de John Harkness, The Academy Awards Handbook. ‘O presidente Nixon assiste duas vezes a Patton (o filme de Franklin J. Scaffner com George C. Scott), na Casa Branca, e decide invadir o Camboja. E foi o livro de Harkness, ao recolocá-lo na estante, que me levou a (re)descobrir Defining Moments! Mais um momento definidor, a morte de Pier Paolo Pasolini. Um garoto de 17 anos, Giuseppe Pelosi, assume a autoria do crime, justificando que Pasolini o havia sodomizado com um pedaço de madeira, na praia de Óstia, naquela noite de novembro de 1975. Exatamente 30 anos depois, em 2005, Pelosi disse que, na verdade, o diretor foi morto por três homens maduros que o espancavam gritando slogans fascistas e frases homofóbicas chulas, e que depois de passar com o carro sobre seu corpo sem vida ameaçaram matar o garoto e sua família, caso dissesse alguma coisa. A nova confissão não veio acompanhada de evidências e não reabriu o caso, mas a teoria da conspiração, numa Itália que pendia para a direita, sempre esteve no ar. E, ah, sim, o Brasil aparece algumas vezes no livro. Vidas Secas/Barren Lives, de Nelson Pereira dos Santos, não é lembrado pela morte da cachorra, Baleia, mas pelo mantra do menino repetindo ‘Inferno, inferno, inferno’; Black God, White Devil/Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, definido como o mais influente filme brasileiro ever made, pela a cena da pregação de Lídio Silva, quando ele diz que os ricos terão de ficar pobres e o mar virar deserto; e Xica da Silva, de Cacá Diegues, pela dança nua de Zezé Motta como ‘a dissonância das civilizações’. Desisti de contar, mas são muitas as inserções, no livro, de filmes filipinos, de Lino Brocka e outros diretores, entre os momentos definidores do cinema mundial.

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