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Momento de desespero

Luiz Carlos Merten

24 de agosto de 2012 | 00h03

De volta a São Paulo. Se a ida para Los Angeles foi complicada, com um atraso (de quatro horas em São Paulo) que me fez perder a conexão em Dallas e penar mais cinco horas (cinco!) no aeroporto, a volta se revelou outro desastre. O voo em Los Angeles atrasou e, ao chegar a Dallas, tive 20 minutos para fazer a conexão. Consegui, mas a bagagem não veio comigo e agora anda em trânsito, por aí. Havia comprado um I-Pad que coloquei na mala. Pior – comprei um livro/álbum de Peter Cowie sobre Akira Kurosawa e uma biografia de Joseph L. Mankiewicz, mais uns blu-rays na loja da Waerner – a entrevista com Clint Eastwood foi feita no estúdio, mas não no bangalô da Malpaso. Valeu a pena o esforço, mas não creio que muita gente tivesse paciência ou disposição para encarar tanto sufoco em troca de 45 minutos com Clint. Não estou me queixando, vejam bem. Existem coisas piores na vida. Aos 66 anos, quase 67, já tive tempo de sobra para me acostumar com a falta da mão. Poderia ser pior. Há uns três anos, durante o Festival do Rio, tive de fazer um cateterismo de urgência, que determinou a necessidade da cirurgia do coração. Mas os médicos não conseguiram introduzir o catéter no braço esquerdo, sem a mão. Tiveram de fazer no direito. Fiquei uma tarde e uma noite imobilizado, ou melhor, sem as duas mãos. Minha amiga Anna Luiza Müeller me salvou a vida, me devolvendo ao hotel, me dando de tomar uma sopa de canudinho, me ajudando a deitar. Foi horrível, e ao mesmo tempo a solidariedade foi uma coisa bacana. Por que estou lembrando isso? Falei no outro dia como são terríveis os contrastes no Hollywood Boulevard, o glamour e sua antítese mais negra, uma miséria pavorosa de gente que faz nossos sem-teto parecerem príncipes. Havia visto aquele cara todo rasgado, as mãos nos bolsos, jogasdo no chão. Quando ele se levantou, encostando-se na parede, feito bêbado, vi que não tinha as duas mãos. Tomei um choque, impressionado com aquele olhar de bicho ferido, acuado. Queria gritar por ele. Que mundo é esse que ninguém tem solidariedade, ou melhor, piedade de um infeliz que leva uma vida de bicho? Confesso que aquilo teve um efeito devastador sobre mim. Me levou a repensar tudo – minha vida, o mundo, meus sonhos. Amei a entrevista com, Clint Eastwood e ela me permitiu colocar em perspectiva informações recolhidas em dois livros desmistificadores do grande homem. Mas, ao mesmo tempo que conseguia restaurar uma fissura na imagem aqui, outra ali, o próprio Clint, aquele velhinho tão caloroso e simpático, um verdadeiro artista e um humanista, assumiu seu discurso conservador, pró Romney, anti Obama, nada de intervencionismo do Estado, tudo pelo e para o mercado. Ele lembrou como sua familia conseguiu atravessar os anos da depressão econômica, como aquilo os fortaleceu. Ótimo, Clint, mas se ninguém dá duas mãos para aquele cara, duas garras de aço, que sejam, como que ele vai se virar, sobreviver, no mercado? Eu mesmo fico me sentindo culpado. Fiquei mal, mas nada fiz, e o que poderia fazer? Estou aqui preocupado com o meu Kurosawa, o meu Mankiewicz, se os livros vão chegar amanhã. Me desculpem pelo desabafo. Deveria ter ido rever ‘Os Intocáveis’ no Festival Varilux, para restabelecer minha fé no humano (mas o tetraplégico de François Cluzet é milionário, o que faz uma diferença e tanto). Meu.amigo Dib Carneiro foi (ver ‘Os Intocáveis’) e, pelo que me contou, lavou a alma. Poupei-o desse desabafo que compartilho com vocês. Não quero ceder ao desespero. Vai passar, como diria Chico. Tem de passar.

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