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Mixando o Brasil

Luiz Carlos Merten

13 de novembro de 2014 | 16h59

Leio no Caderno 2, matéria de Rafael Abreu, que o Mix Brasil, que começa hoje, terá sua primeira mostra competitiva de longas e médias nacionais neste ano. Entre os longas está o documentário de Rodrigo Felha Favela Gay, que já passou e foi premiado no Rio. É bem bacana, com personagens – Rodrigo prefere dizer ‘pessoas’ – incríveis. Fiz a mediação do debate na Première Brasil e foi bem revelador. Na ocasião, o diretor já fizera a afirmação que reencontro no texto do Estado – ‘Não existe diferença entre o gay da favela e o do asfalto.’Muito interessante.  Também hoje, estreia o documentário que ganhou o prêmio de melhor no Rio – À Queima Roupa, de Theresa Jessouroun, sobre duas décadas de violência da polícia carioca. Haverá debate com a diretora daqui a pouco, no Espaço Itaú Frei Caneca, às 19h20, após a exibição. Se der, corram. O filme é forte e Theresa consegue ser mais impressionante ainda pela firmeza com que aborda, na tela e fora dela, temas contundentes que dizem respeito à própria organização da sociedade brasileira. Sei disso porque também fiz a mediação do debate dela com o público da Première Brasil, no Rio. Theresa é f…, sorry pela incontinência verbal. De volta ao Mix Brasil, além das atrações brasileiras, existem as internacionais. Nunca fui muito fã de Xavier Dolan, mas com Mommy, este ano, em Cannes, ele me apanhou. E o Mix Brasil tem uma obra-prima absoluta, como dizia Cahiers du Cinéma nos idos de 1950, na época de Godard e Truffaut. É E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto, um documentário com mise-en-scène, na primeira pessoa, em que o diretor português aborda o próprio tratamento contra a aids e como o companheiro e ele lidam com a condição de ser soropositivo. É uma coisa tão corajosa, tão visceral, e ao mesmo tempo Joaquim Pinto devassa sua intimidade até chegar ao pinto, propriamente, em cenas de sexo explícito, como nunca vi. Assisti este ano a dois dos maiores documentários de minha vida, o de Joaquim Pinto e o National Gallery, de Frederick Wiseman. Se os dois forem para o Oscar da categoria, não queria estar na pele dos votantes da Academia, que terão de escolher. Mas digo que, mesmo amando tanto o Wiseman (como amo), votaria em Joaquim Pinto, por sua resistência, até como homenagem a grandes amigos que se foram e me fazem falta, sempre. Se vocês não tomarem um choque vendo E Agora? Lembra-me… Se vocês não tivessem a capacidade de ser tocados por esse grande filme, não seriam meus leitores no blog, para resumir.