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Mix Brasil (5)/E o Coelho foi para… Indianara!

Luiz Carlos Merten

21 de novembro de 2019 | 10h13

Não sei se teria premiado Indianara, mas fiquei muito impressionado com o filme de Aude Chavelier-Baumel e Marcelo Barbosa, que venceu o Mix Brasil, e faz todo sentido (a vitória). Aliás, posso estar passando atestado de ignorância – me desculpem -, mas quero sempre perguntar, e me esqueço, por que o troféu se chama Coelho. Indianara, a personagem, é uma mulher trans que possui uma casa de apoio para pessoas transgêneros em situação de risco, no Rio. Milita por direitos da população LGBTQ+, é casada com um macho alfa. Sendo uma personagem forte, o filme que a retrata não é, nem poderia, ser careta e, desde Cannes, em maio, onde passou na mostra ACID, Indianara tem ganhado um monte de críticas favoráveis na imprensa francesa. Não pude deixar de pensar, e espero que não vá nenhum preconceito nisso, numa fala de Port Authority. O garoto, ao descobrir que sua amada é trans, diz que não é gay, ela retruca que também não é e, se ele fosse, não estaria interessada. Muito interessante. Di-ver-cidades. Brinco. Diversidade é isso. A interação, a aceitação, o respeito entre gêneros, tribos. Indianara deve estrear ainda este ano em Paris, e a questão é – quando, no Brasil? Filmes de um certo perfil – Indianara, A Rosa Azul de Novalis, o Marighella de Wagner Moura – estão na contracorrente do movimento político/ideológico (e religioso, intolerante) que se instalou no poder no País. Indianara, com seu casal protagonista – e a luta dela -, não se enquadra nos padrões ‘deles’, e eu imagino que a dupla de diretores vá comprar uma batalha para colocar seu filme nas telas. O importante é que, apesar de tudo, os filmes estão conseguindo achar seu caminho. Bixa Travesty, de Kiko Goifman e Cláudia Priscilla, sobre a artista e ativista Linn da Quebrada, estreou ontem e também assisti, um tanto tardiamente – o filme já estava em cartaz – a Azougue Nazaré, de Tiago Melo, sobre o confronto entre política e religião, centrado nos embates entre o povo do maracatu rual e convertidos à crença evangélica numa cidade da Região da Mata, em Pernambuco. Azougue, de alguma forma, dialoga com Bacarau e, neste sentido, também tem tudo a ver com Parasita, Coringa, A Odisseia dos Tontos. A revolta dos excluídos. A voz daqueles a quem o poder quer calar. O cinema tem sido uma ferramenta valiosa para nos ajudar a entender o mundo em que vevemos.

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