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Mix Brasil (3)/Tente entender

Luiz Carlos Merten

16 de novembro de 2019 | 10h47

Fui ver ontem à tarde o novo documentário de Emília Silveira no Mix. Tente Entender o Que Tento Dizer. O título pega carona em Caio Fernando Abreu. Soropositivos. Emília filmou 30 pessoas, só seis estão no filme. O lugar da fala. Todas narram histórias fortes, mas nenhuma me tocou tanto quanto a da mulher que se recusa a demonizar o marido, de quem contraiu o vírus. Tenho cá divagado com meus botões tentando entender esse tema – o amor. Parece uma coisa tão intuitiva. O que, no mundo todo, nos direciona a ele, a ela? Instinto, toque, tudo isso é verdade, mas tem a cultura. O amor pode não ser só, mas também é um discurso (im)plantado na cabeça da gente. Raramente corresponde à realidade, até porque, de perto, ninguém, é normal. A fala da personagem da Emília me bateu fundo. O relato que ela faz da morte do ex-companheiro. Tenho uma amiga numa situação similar. O grupo demonizou o marido, ou ele, por vergonha, culpa, sabe-se lá por quê, se isolou. Essa história sempre me produziu a maior dor, porque havia, veladamente, a questão da coitadinha e do canalha. As coisas nunca são simples. Emília, com seu olhar – e sua personagem -, me abriu outro foco. O filme é muito bom, dos melhores que ela fez. Discute saúde pública – o Brasil já foi referência internacional no combate à aids e apoio a soropositivos, mas, como muita coisa nos últimos anos, e ao longo deste ano, deixou de ser. Voltou a política do intimidamento e do medo, num momento em que aumentam os números de soropositivos entre jovens (de periferia) e idosos. Para além das políticas públicas, existem as pessoas. Sem nenhum comprometimento nem facilidade para tornar-se chapa-branca, Tente Entender põe na pauta a superação. Adorei, o filme – e seus/suas personagens.

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