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Mix Brasil (2)/Inferninho, o inferno da peste (e o belo-feio, o feio-belo)

Luiz Carlos Merten

18 Novembro 2018 | 10h41

No programa de Estado de Sítio, Gabriel Villela e seus assistentes, Ivan Andrade e Daniel Mazzarolo, esse último também ator – faz o Mensageiro -, assinam o texto principal, que diz, entre outras coisas, que seu grotesco (o de Albert Camus) ‘tem uma mordacidade peculiar’ e ‘ele, contraditoriamente, também desvela a beleza na feiúra, predicado de outro gênio,o maior de todos, William Shakespeare’. Macbeth – “O belo é feio e o feio é belo.” Volto depois a Estado de Sítio. Agora quero dizer que o princípio shakespeariano da feiúra bela e da beleza feia aplica-se a Inferninho, que revi ontem no Mix Brasil. Havia sido uma sessão meio tumultuada no Festival do Rio, onde o filme de Guto Parente e Pedro Diógenes ganhou dois prêmios. A estética gay da dupla é muito particular. Visuais sombrios, contratipados, mas de intenso colorido. Purpurina. Existe algo de História Imortal, mais de Orson Welles que de Isak Dinesen, nessa história da dona trans de um inferninho que acolhe o marinheiro, com quem vive uma história de amor. Amor de perdição. Ela parte, conhece o mundo e volta – ao (novo) inferninho, no qual o marinheiro agora é dono e refaz, invertido, o convite inicial (para retomar o amor?). No palco do Odeon, no Rio, agradecendo seus prêmios, Guto agradeceu a seus amigos da cia. teatral Bagaceira, de Fortaleza, sem os quais, garantiu, Inferninho, o filme, não teria sido possível. Gostei de ter revisto o filme. Clarificou certas ideias. Talvez não seja ‘bom’, mas é bom de ver. E traçou, no meu imaginário, uma ponte muito interessante – com outro inferno, o da peste, em Estado de Sítio. Se tivesse de refazer hoje o texto sobre Gabriel Villela e o Cinema para o livro Imaginai!, que disseca o teatro do grande encenador mineiro e com o qual Dib Carneiro e Roberto Audi ganharam o Jabuti – ia escrever o Pulitzer -, talvez privilegiasse Emir Kusturica sobre Serguei Parajanov, que é muito mais uma escolha do próprio Gabriel, como seu cineasta preferido. A feiúra da beleza e seu complemento, o belo feio, estão muito mais entranhados na estética de Kusturica, veja-se o caso de sua obra-prima, Vida Cigana, que na Fortaleza Suram ou no trovador Kerib, de Parajanov. Também poderia citar Polanski, atraído pela feiúra abissal da natureza humana, e outra frase esclarecedora de Shakespeare, mas essa talvez pareça muito cifrada – “Nenhuma arte revela / como havemos de ver, na face, por inteiro, / A natureza da alma. Ele era um cavalheiro / Em que muito confiei.” (Lembro-me, Gabriel também deve lembrar-se, estávamos na estrada, em Minas, indo para o Instituto Inhotim. Passou um caminhão, com uma estaca coberta por um pano e o vento desprendeu uma ponta que ficou esvoaçando. ‘Parece uma noiva do Kusturica’, definiu Gabriel. Aquele foi um momento mágico.) Como artista, Gabriel é muito mais um perfeccionista viscontiano que um improvisador genial como Roberto Rossellini, capaz de incorporar os percalços do momento. No post anterior, sobre Estado de Sítio, não falei do que achei mais belo – os cachorros do inferno. Mas até eles encerram um pequeno problema. Quando a morte se metamorfoseia, de frente para o público e o ator veste a luva e a joelheira, quebra-se por um momento o efeito, que seria mais impactante se ele o fizesse de costas e, ao virar-se, já fosse o cão rastejante. (Vou deixar por conta do distanciamento brechtiano.) Mas é maravilhoso, uma ideia de gênio. Também acho, lá vou eu me queimar, que a ideia do banco, por trás da cena, coloca outros inconvenientes. Nenhum ator desceu com naturalidade do tal banco na sexta-feira à noite, e eu já estava com o coração na mão, com medo de ver algum desabar. O medo perpassa o texto (e a montagem), mas não devia ser por esse detalhe. Vejam!