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Mix Brasil (1)/Persistir!

Luiz Carlos Merten

14 de novembro de 2019 | 08h41

Fui ver ontem Retrato de Uma Jovem em Chamas, na abertura do Mix Brasil. É o 27.º Festival de Cultura das Diversidades. Há um ano, lembrou André Fischer, estávamos em choque com a vitória de Jair Bolsonaro na eleição presidencial. O grande salto no escuro. Para a cultura, está sendo um desastre, um retrocesso imenso. Para a economia, em nome da modernidade, a classe trabalhadora vai acordar (quando?) numa ressaca medonha, quando todos os seus direitos tiveram sido anulados e a desigualdade, estamos no caminho, for instituída como política de estado. Persistir – é o lema. Gostei do filme de Céline Sciamma, só não sei quanto. A relação de uma pintora e sua modelo – de uma diretora e sua atriz, Adèle Haenel? A pintora é contratada para fazer o retrato de uma jovem aristocrata. O quadro será o selo para o seu casamento com um homem que nunca viu, e que ela recusa. Tornam-se íntimas, mas… É uma relação condenada. O quadro é condenado – Marianne, a pintora, estará querendo se apossar da alma de Heloïse, a modelo? Quer ser sua ‘dona’? Nunca li, exatamente, as críticas publicadas em revistas de língua inglesa, mas pelo tom – as chamadas, títulos e olhos das matérias – sei que Jeune Femme en Flammes provocou sensação em Cannes, onde recebeu a Palme Queer e o prix du scénario. Tinha uma expectativa elevadíssima, a que o filme correspondeu em parte. Ecos de Jane Campion, O Piano, o mar. A sombra de Emily Bronte, O Morro dos Ventos Uivantes. Mas Céline não se prende às referências. Achei o filme frio. Como se filma o desejo feminino? Como uma mulher, e gay, filma o pulsar sexual de outra mulher? Céline não concede nada daquilo que seria, talvez, objeto de um olhar masculino. Mas nessa arquitetura dramática e erótica de signos velados – morder os lábios, tremer as sobrancelhas – ela cria duas cenas para implodir a geleira. Duas cenas de ‘música’. O ritual pagão, quando as mulheres da aldeia cantam ao redor da fogueira e Marianne vê, enfim, Heloïse em chamas, e a ópera, no final. Tudo, em Retrato de Uma Jovem em Chamas, leva àquele final, como no Martin Scorsese, O Irlandês, que estreia nesta quinta, tudo leva, as 3h30, ao diálogo de Frank/Robert De Niro com a filha, no desfecho. Achei o Scorsese impressionante – lampejos de seus grandes filmes sobre a Máfia, O Bons Companheiros e Cassino -, mas não sei se é o estado do mundo, e do Brasil, essa ignorância, essa barbárie no poder, me produziu um enfado toda aquela explosão de violência. Já gostei mais, me diverti mais com esse tipo de coisa. Hoje, no Irlandês, o que me impressiona, choca até, é a ausência de afeto. Existe cumplicidade, mas lealdade? As melhores cenas são diálogos. Pai e filhas, o silêncio eloquente de uma e a fala da outra. A perplexidade que Frank manifesta para Russ/Joe Pesci. Eles não ousariam – a Máfia, matar o poderoso Jimmy Hoffa, presidente do sindicato dos caminheiros. Mataram o presidente (Kennedy), diz Russ. Scorsese, pela via da ficção, encerra não um, mas dois casos célebres da história norte-americana no século. Parece o Brasil dos últimos anos, o conluio entre Legislativo e Judiciário para ferir o Executivo, com a salvaguarda do Supremo. Scorsese mostra o que já sabemos e sugere umas outras tantas coisas, mas a despeito de tudo – do brilho, inclusive – tem um componente emocional que o filme não preenche. Havia esse plus a mais – grandeza? Tragédia? – nas trilogia da Máfia de Francis Ford Coppola. Vinte e tantos anos depois, Scorsese fecha sua trilogia e a sensação, a minha, pelo menos, é de vazio. Então é isso. That’s it. O último que sair apague a luz. Da arte eu espero um pouco mais que isso.

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